domingo, 28 de junho de 2009

Minha Vida de Menina

O livro "Minha Vida de Menina", de Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira), é uma compilação dos escritos do seu diário de adolescente e retrata a vida cotidiana nos anos 1893-1895 na cidade mineira Diamantina. Na minha opinião é um livro divertidíssimo, uma delícia de leitura! É possível imaginar as cenas como se estivéssemos presentes. Abaixo alguns trechos:

"Não desejo ter dor de dente porque vejo todo o mundo chorar tanto, que penso que há de doer muito. Naninha, quando tem dor de dente, põe a casa toda maluca. Tia Agostinha fica só rezando e fazendo promessa, com medo de Naninha enlouquecer. Ela grita, rola no assoalho, bate com a cabeça na parede que a gente pensa que é doida do hospício. Outro dia os gritos foram tantos que a gente da rua entrou para acudir; ela xingou a todos e foi rolar na horta."

"Certa hora, como tínhamos posto os colchões no chão, uma pulga entrou no ouvido de Beatriz e ela pula da cama desorientada e entra pelo quarto de tio Conrado gritando: "Uma coisa entrou no meu ouvido! Eu fico doida! Me acode!". Tio Conrado desceu da cama e disse: "É uma pulga, minha filha, não vale nada!". Pelejava para tirá-la sem conseguir e Beatriz gritando: "Me acode! Eu fico doida!". Ele então, mais nervoso do que ela, pedia: "Dê cá uma pulga pelo amor de Deus! Arranjem uma pulga que eu quero pôr no meu ouvido para mostrar a esta menina que isto não é nada!". Mas nada de se arranjar uma pulga. Era impossível. Eu procurava com muita vontade de encontrar, para ele pôr mesmo no ouvido e não ficar contando histórias. Nunca tive tanto desejo de fazer uma maldade. Mas tive vontade tão grande de rir da cena dos dois, Beatriz gritando com a pulga e tio Conrado querendo também uma para pôr no ouvido, que não pude me conter."

"Se há uma coisa que eu desejo na vida é ser menos esfomeada do que sou. Tenho até vergonha. Nunca tive um dia de pouca vontade de comer. Até já perguntei ao doutor se não haverá um jeito da comida não gastar tão depressa e ele achou graça. Esperei sem poder falar muito, de tanta fome. Chegou a hora do jantar e a negra Maria encarreirou todos os meninos no banco da mesa grande do salão do forno e foi trazendo os pratos feitos para cada um. Quando chega a minha vez Maria vira para mim e pergunta: "Sinhá Helena, ocê também quer janta?". Eu, espantada da pergunta, respondi: "Não, não quero não!" Pensando que a burra entendesse. Espero o meu prato e não vem. Grito a Maria: "Que é do meu prato?". Ela responde: "Uai! Ocê não disse que não queria? Agora não tem mais comida". Fiquei tão pasma que nem pude reclamar. Fiz o que mamãe diz que a gente deve fazer quando o sofrimento é grande: oferecer o sacrifício a Deus que ele agradece e ajuda depois, quando se precisa."

E, por fim, nota da autora, sobre o livro, para suas netas:

"Agora uma palavra às minhas netas. — Vocês que já nasceram na abastança e ficaram tão comovidas quando leram alguns episódios de minha infância, não precisam ter pena das meninas pobres, pelo fato de serem pobres. Nós éramos tão felizes.' A felicidade não consiste em bens materiais mas na harmonia do lar, na afeição entre a família, na vida simples, sem ambições— coisas que a fortuna não traz, e muitas vezes leva."

5 comentários:

Vini disse... [Responder comentário]

Parece muito bom, e engraçado *-*


Vô por na minha listinha! Pra quando eu acabar de ler o Marley e a Torre.


Boa dica! :]

Matheus disse... [Responder comentário]

gostei do livro, sera q nao tem na net nao?

quero ler!! ^^

cada vez melhor o blog anna *-*!

Vini disse... [Responder comentário]

Gente... Pára tudo! (ixi... Pára ou para? Já nem sei mais ._.)

Esqueci de falar -aqui- sobre a nova "cara" do blog!
Esse "NEGÓCIO" estilo caderno, diário...
Ana, tá maaara!!! Assim como o resto do blog. Os textos ficam cada vez melhores! ^_^

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Opa! Gente gostando do blog é sempre bom! E quanto ao livro, tem na net sim! Vai no site www.4shared.com e procura lá que vc acha!

Ricardo (o deoroz) Luciano disse... [Responder comentário]

Ei, minha irmã emprestada!

Cada vez melhor o blog... já sou freguês!

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