segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A escritora da minha infância

Há um tempo atrás, numa outra postagem aqui do blog, eu comentei do meu encontro com a escritora Alaíde Lisboa, e como essa imagem está gravada na minha cabeça. Pois hoje eu arrumei um tempinho para relembrar em maiores detalhes desse dia. Lembro que saía da missa de domingo, com a minha mãe. Fomos a uma igreja pequena, que não lembro mais o nome, e que não tinha nada de especial (se comparada com as outras), fora o fato de que foi a igreja onde meus pais se casaram. Na minha cabeça de criança era a igreja dos peixinhos. Isso porque as paredes internas são revestidas de uma pedra que forma um tipo de mosaico e vários desenhos de peixes são visíveis. Pois bem, eu e minha mãe saíamos de lá quando ela me disse que uma senhora que estava ao lado era a Alaíde Lisboa. Dela eu já tinha lido A Bonequinha Preta e não pude muito acreditar que uma escritora estivesse assim tão perto. Minha mãe foi até ela, se apresentou e disse que eu já tinha lido um livro dela e que era sua fã. A senhora, que a mim me pareceu muito distinta e bem parecida com o jeitão da minha avó, veio falar comigo, sorriu, foi simpática e nos convidou para visitar a casa dela, que ficava a uns poucos quarteirões dali. Fomos até lá e me lembro que achei sua casa bem agradável, com uma salona enorme e cheia daqueles móveis antigos, como as cristaleiras, bem coisa de vovó mesmo. Aí ela veio com um punhado de livros e foi me presenteando. Aquilo parecia um sonho! Porque na minha pequena cabeça, escritores eram algo assim super importante, meio que artistas de cinema, e encontrá-los por acaso na rua era algo inimaginável. E lá estava eu, na casa de uma delas e ganhando vários livrinhos! Eu não conseguia prestar atenção na conversa, a ocasião, para mim, era solene demais para ficar relaxada. Lembro dela me contar sobre um livro chamado Edmar, Esse Menino Vai Longe. O tal do Edmar era o netinho dela e parece que o garoto tinha pedido à avó um livro em sua homenagem. Que inveja eu senti! Como eu queria um livro em minha homenagem também! Que honra seria fazer parte de uma história para tanta gente ler!

Voltei para casa nas nuvens. Acho que fiquei uma semana inteira falando desse encontro e fazia questão de ir sempre à missa e procurar por ela de novo. Acho que chegamos a revê-la e cumprimentá-la, mas nunca mais paramos para conversar. De qualquer forma, esse encontro ficou na minha memória.

Um tempo atrás, pesquisando um pouco sobre ela, descobri que Alaíde Lisboa faleceu no dia 04 de novembro de 2006, aos 102 anos, no exato dia em que eu fazia 27 anos. Coincidência essa que me deixou triste. Ela era natural de Lambari - MG, irmã da também escritora Henriqueta Lisboa e além de integrar a Academia Mineira de Letras e ser professora da UFMG, foi a primeira vereadora de Belo Horizonte. Pela sua criação, numa época onde as mulheres não tinham as mesmas oportunidades que os homens, dá pra perceber que ela foi uma mulher forte, de conteúdo, alguém de quem se orgulhar. E na minha memória sempre vai ficar aquela imagem de uma senhora distinta, doce e educada!


"Nasci com o Brasil
a 22 de abril
não foi em 1500
mas faz muitos anos

E assim escrevi mais de um livro
tive mais de um filho
plantei mais de uma árvore"

(trecho do poema "Alaíde", por Alaíde Lisboa)

2 comentários:

Matheus disse... [Responder comentário]

nossa, 102 anos... nunca ouvi fala dela...vo ve se acho algum livro dela pra le!! e q infancia hein anna...cheia das historias..conhecendo gente famosa!! conta mais ;D

Gislene disse... [Responder comentário]

LINDO, LINDO, ANA...
É AQUELE TIPO DE EXPERIÊNCIA QUE A GENTE DIZ QUE NÃO TEM PREÇO...
UM BEIJÃO, GISLENE.

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