sábado, 26 de setembro de 2009

Bilbo, o Gatorr

Era um dia quente, daqueles que fazem a gente ir derretendo aos pouquinhos, e eu estava na Feira de Artesanato de Belo Horizonte com duas amigas. Como não tinha mais nada a fazer ali, estávamos de saída, procurando espaço para caminhar em meio a multidão costumeira do lugar. Foi quando eu o vi. A coisinha mais lindinha, mais fofinha, mais pequenina, deitado em uma caixa. O gatinho siamês perfeito. Eu sempre adorei gatos. Desde pequena pedia um gato às pessoas que encontrava. E desde muito já tinha decidido que gatos siameses eram os mais perfeitos dentre todas as raças. Na caixa estavam ainda seus 3 outros irmãos. Me aproximei um tanto quanto encantada com os bichanos e perguntei, apontando para aquele que tinha atraído minha atenção: "é uma fêmea?". O rapaz me disse: "Não, já vendi todas as fêmeas, todos esses são machos". "Posso pegar neles?". "Pode sim". Levantei um por um. Todos cravaram as unhas na minha roupa. Todos menos aquele primeiro, que deitou pacificamente na minha mão e ficou por ali achando tudo ótimo. Foi amor à primeira vista. "Quanto custa um gatinho?". "Cinquenta reais". "Tá caro!". "É o preço". "Faz um desconto?". "Esse é o preço". "Não sei se tenho esse dinheiro todo na minha conta, faz um desconto!". "É o preço, se você quiser pode me dar um cheque e eu espero um tempo antes de depositar". Coloquei a minha melhor cara de falta de interesse e disse: "Vou ao banco, talvez eu volte para pegar um, talvez não". Dei alguns passos e voltei: "Guarda estezinho aqui pra mim? Mas ó, só serve ele hein!". Ele guardou. Voltei sem pensar muito no que eu estava fazendo e comprei o miador. Fomos para a casa de uma das minhas amigas. Me bateu um desespero, eu pensava que meus pais não iriam querer um gato no apartamento, na verdade eles tinham me dito isso diversas vezes, e ali estava eu, carregando um gato já comprado comigo. Falei com minha amiga, implorei pra ela ficar com o bichinho se as coisas desses errado lá em casa e ele fosse expulso de lá. Ela disse que ficaria com ele somente nesse caso. Carreguei aquela coisinha lindinha o dia todo comigo até chegar em casa.

Chegando ao apartamento coloquei o gatinho no chão e disse: "Mãe, olha que lindo!". Aí eu contei toda uma história inventada para aquele momento com um único propósito de convencer gente desconfiada: "Pois é, você não sabe o que houve, uma coisa séria mesmo, minha amiga está indo fazer intercâmbio e a gatinha dela pariu e ela está realmente desesperada porque não sabe o que fazer com os filhotes, aí ela pediu pra eu trazer um e caso vocês realmente não deixassem eu ficar com ele eu poderia dá-lo para minha outra amiga, bla bla bla". Ela não gostou muito, mas acreditou. Eu me senti até mal pelo tamanho da mentira, mas era por uma boa causa.

O primeiro dia foi um horror. O bichinho só miava, subia onde não devia, não conseguia ficar sozinho sem destruir metade da casa, não comia nada. Mas pelo menos as necessidades ele só fazia na terrinha higiênica que eu comprei. Meu pai chegou e fez uma cara! Pensei: "Ferrou, já era Gatóvski, esse aí você não convence". Mas ele só achou ruim e não falou mais nada. A noite inteira o gatinho miou. Eu, pra acostumar o bichano logo com a vida dura, coloquei um caixote pra ele dormir na área de serviço. Já tinha sido uma vitória mantê-lo por ali todo aquele tempo, não dava pra forçar! Mas o gato miava o tempo inteiro. Boa parte da noite eu fiquei lá com ele. De manhã eu estava derrotada. E assim foi por alguns dias. Quando eu já estava até tendo pesadelos e amargamente arrependida do meu ato impensado o gatinho se ajeitou.

Isso foi em 2001. Daquela época pra cá o bichano, que se chama Bilbo, mas que eu sempre insisti em chamar de Gatorr, cresceu e se acha o rei do pedaço. Minha mãe cuida bem dele, mas vive dizendo que ele bagunça tudo e dá trabalho. Meu pai diz que não gosta do pobrezinho, mas o pobrezinho o ama de paixão, chegando a seguí-lo pela casa! No fundo eu acho que os dois adoram o bichano, mas nunca vão admitir. De vez em quando eles ameaçam doar o Gatorr e eu quase morro de aflição aqui em São Paulo. Mas o certo é que ele está com a gente já há 8 anos e meio.
Morro de saudades dessa coisinha linda que me deu a maior alergia que já tive na vida. Na verdade é só chegar perto que a minha rinite alérgica começa com força. Mas fazer o que? Se esse é o preço a pagar para apertar essa bolinha gordinha, é o jeito!

PS: Ah é, e minha mãe até hoje não acredita que o gato foi comprado. Contei pra ela uns anos depois e ela disse pra eu "parar de inventar história".

2 comentários:

Bia disse... [Responder comentário]

Que gato maravilhosamente lindo... tenho uma história bem parecida, com uma bolinha peluda em casa!
Meu gato, o Merlin, está comigo desde 2000, e minha mãe também não o queria... tive que chegar com ele em casa, dizendo que o ganhei da minha tia pra que ela o aceitasse! No início, também foi um sufoco, mas hoje todos morrem de amores pelo bichano... ainda ouço, de vez em quando, "eu vou dar esse gato", mas não passa disso!
Se eu também não tivesse coragem naquela época, não o teria aqui comigo...
Abraços, Ana!

entremares disse... [Responder comentário]

Histórias parecidas... mas comigo foi uma cachorra, que a gente baptizou de Pantufa. Tinha um focinho lindo, e quando a vi na loja, ela cravou-me os olhos em cima... e pronto, já não pude sair sem ela.

E agora... faz parte da familia, claro.

( somos doidos, não somos? Bichos só dão trabalho, e mesmo assim a gente gosta... )

Beijos
Rolando

Related Posts with Thumbnails