sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Colecionadora de Prazeres

Ela era uma colecionadora de pequenos prazeres. Desde muito pequena sentia um ímpeto de fazer certas coisinhas secretas que lhe proporcionavam sensações diversas, todas muito agradáveis. Não conseguia andar pela feira sem enfiar a mão inteira dentro de um saco de grãos que por ali encontrasse. Ela rodeava a barraca, observava as pessoas e a dinâmica da venda, esperava que o senhor que ali trabalhava se distraísse por alguns segundos e aproveitava o momento. A mão ia rápida e mergulhava nas sementes. Sentia o roçar de cada grãozinho nos dedos, chegava a fechar os olhos para aproveitar o momento. E então saía dali discretamente, procurando não ser notada.

Outra fraqueza eram as coberturas de bolos. Eram tentações tão suculentas e convidativas! Gostava de sentir o cheiro doce, observar cada cantinho da calda e escolher o lugar certo. A mão praticamente agia sozinha. Num movimento rápido, a doçura já enchia sua boca e acalmava seu desejo. Tudo feito silenciosamente, sem testemunhas, sem culpa.

Gostava ainda de passear pelo campo após os temporais. O cheiro da terra molhada subia inebriante e tomava de uma só vez seus sentidos. Era um momento só seu, uma entrega a sensações, um verdadeiro deleite.

A alegria furtiva de momentos como esses era tudo que sempre se permitiu. Mas a ansiedade que sentia agora era algo novo, precedia uma emoção diferente. Ao contrário da clandestinidade dos seus pequenos prazeres, esse seria um prazer definitivo, aquele para o qual todos os outros foram apenas um ensaio. Seu coração batia descontrolado. Tinha sido tudo tão rápido! A ninguém devotara esse carinho, nunca antes quis tanto algo como agora. Esse novo sentimento enchia sua alma. Com poucos encontros pôde perceber que essa seria uma relação para a vida inteira, incondicional! E naquele pátio começaria uma nova vida. Enquanto pensava e repensava sobre os passos que a levaram até ali, uma menina sorridente, de vestidinho branco, saiu da casa grande acompanhada por uma mulher austera. Elas se aproximaram e a mulher começou uma infindável explicação sobre como as coisas deveriam ser. Mas ela já não ouvia mais. Seus olhos se fixaram ansiosamente na garota, quase desesperadamente. A senhora lhe entregou um papel onde em grandes letras se via a palavra adoção, quase no mesmo instante que uma mão pequenina pousou na sua. E aquilo bastou para encher seu coração... e mudar completamente a sua vida.

5 comentários:

entremares disse... [Responder comentário]

Chegara o grande dia.
Madalena, quase sempre calma e controlada, até recuperara o velho vício de roer as unhas; Ora se apoiava num pé, ora noutro, lá ia passeando pela sala de espera, espreitando pela janela, pegando numa revista da mesa, para a largar logo de seguida.
O certo é que não conseguia permanecer quieta.
- Vá lá, vá lá... – sussurou, dirigindo-se a si própria.
Continuava sózinha na sala de espera. O marido ainda não voltara, provavelmente retido na secretaria a preencher mais uma dose de papéis, formulários, recibos, atestados, certificados, enfim... nem ela sabia bem o quê.
Chegara o grande dia.
Dali a pouco, aquela porta branca abrir-se-ia e o pequeno Ruben, de grandes olhos castanhos, ser-lhe-ia entregue para, de uma forma definitiva, passar a fazer parte da família, da sua família. Sentiu apertar-se o coração.
O processo de adopção fora longo, mais longo do que sempre imaginara. Perdera a conta às entrevistas, às longas conversas com a psicóloga do centro, aos questionários que tivera que responder, aos atestados médicos, aos registos criminais... para finalmente poder chegar à segunda fase, aquela em que pôde conviver com o pequeno Ruben, primeiro no Centro, depois na sua própria casa, vê-lo a rir, a esticar os braços e a chamá-la, nas tais pequenas sílabas que a emocionavam; mã... mã...
Só de pensar naquelas pequenas recordações, sentia um nó na garganta.
Madalena, trinta e oito anos de idade, sem problemas de saúde, funcionária de repartição de finanças, casa própria, casa de férias no algarve, situação económica desafogada, casamento estável, marido mediador de seguros, horários descomplicados, sem filhos.
Poderia ser um pequeno retrato da sua vida... ou pelo menos, da sua vida actual; uma vida sem sobressaltos, sem problemas, bem organizada, metódica, muito urbana – como gostava de frisar o marido. Com isto ele queria referir-se ao modo como ambos gostavam de preencher os tempos de lazer, com idas regulares ao cinema, ao teatro, algumas escapadelas de fim de semana a pousadas de turismo, uma ou outra viagem ocasional, todas as exposições de fotografia que conseguissem descobrir e, claro está, aquele hábito que já nem era um hábito, mas sim um vicio, de ir almoçar ao restaurante do sr António, todos os domingos. O motivo? Um ensopado de borrego que era impossível de descrever, sem igual.
No entanto, a funcionária da repartição de finanças, sempre tão controlada – e não raras vezes, o serviço exigia mesmo doses extra de paciência e boa disposição – sentia-se naquele momento a tremer de nervosismo como se de uma criança se tratasse, apanhada a comer uma guloseima proibida.
Não tinha filhos.
Mas carregava consigo um segredo, um daqueles segredos que pesava na alma e que a acompanhava todos os dias, todas as noites, um segredo que lhe provocava pesadelos, insónias, dores de cabeça, um segredo que a fazia envelhecer... e que não desaparecia só por, regularmente, pintar a meia dúzia de cabelos brancos que lhe iam surgindo, semeados entre a longa cabeleira de madeixas castanhas.
Não, os segredos não se esfumavam assim, por muito bem guardados que fossem...

(continua...)

entremares disse... [Responder comentário]

(...continuação)

E tempos houvera em que Madalena, agora tão controlada, tão bem encaminhada na vida... tempos houvera em que Madalena fora uma pessoa diferente.
Aos dezasseis anos, farta de um ambiente familiar destroçado, farta das investidas de um padrasto pouco escrupuloso, fugira de casa, com o seu primeiro amor, um entregador de pizzas.
Ele dissera-lhe: Vem comigo, vamos os dois para fora daqui.
E ela fora, sem mais argumentos nem desculpas.
Lavou pratos, lavou escadas, varreu as ruas. Até teve um filho.
Mas não ficou com ele.
Arrependeu-se muito tempo depois, já era tarde demais.
A roda da fortuna girou de novo, e uma brisa mais suave bafejou-a de tempos mais amenos. Voltou a estudar, reconciliou-se com a mãe, entretanto já separada do padrasto, arranjou um emprego estável numa estufa de flores... e aí conheceu o Miguel, um jovem estagiário de agronomia que sonhava ser agricultor.
Casaram-se, ela tornou-se funcionária pública e ele mediador de seguros. Nunca tiveram filhos.
Nunca lhe contou o seu segredo. Sempre acreditou que aquela era uma cruz só sua, uma culpa muito íntima que, mais tarde ou mais cedo, precisaria de expiar. Mas nunca soubera como...


- Mas tens a certeza do que pretendes fazer ? – repetia-lhe o marido, perplexo – Tu já mediste bem as consequências ? Não te vais arrepender ?
Ela não tinha a certeza. Como ter certezas ? Mas sabia, sentia algures bem lá no fundo que precisava de fazer aquilo... como se aquela fosse a única forma possível de se redimir pela sua culpa, devolvendo agora, vinte anos mais tarde... amor.
A porta branca abriu-se e a assistente social entrou, segurando pela mão o pequeno Ruben.
Madalena não conseguiu conter as lágrimas. Correu para ele e abraçou-o, apertando-o apaixonadamente contra o peito.
- Meu pequenino... que saudades que eu tinha de ti...
Ele lançou-lhe um sorriso e abriu aqueles grandes olhos castanhos, que a tinham cativado desde o primeiro momento em que o vira.
- Mã... mã...
- Sou eu, Ruben.... sou eu... estou aqui...
O pequeno Ruben esticou os braços, tacteando o espaço à procura do rosto de Madalena. Finalmente encontrou-o... percorrendo-o demoradamente com as mãos, reconhecendo cada covinha, cada ruga, o nariz arrebitado, os longos cabelos.
- Mã... mã...
O Ruben era, sem dúvida, especial. Não só pelo pormenor de ser cego, cego de nascença.
Madalena sabia-o bem, pesara todas as consequências.
- Madalena... porque não... uma criança normal ? – insistira vezes sem conta o marido.
Mas ela mantivera-se firme. Vinte anos depois, sentira que acumulara amor suficiente para ultrapassar todos os obstáculos. E o Ruben, sabia-o bem, precisava dela.
- Anda, Ruben, anda... – e estendeu-lhe a mão – vamos para casa, anda...

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Rolando, que texto maravilhoso! Até me emocionei! E parece que combinamos em vários temas nos textos que escrevemos! Um grande abraço!

Eduardo Loureiro Jr. disse... [Responder comentário]

Belo texto, Ana Lúcia! Muito bonita a descrição da mão no saco de grãos.

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Eduardo! Que prazer ter você por aqui! Apareça mais para um dedo de prosa mineira!

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