terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dudu

"Urso estúpido!" pensou o menino. Com movimentos raivosos pisou no brinquedo e o atirou pela janela. Dudu, como sempre chamara seu ursinho de pelúcia, foi parar no jardim, ao lado de um canteiro de rosas, em meio a uma tempestade. "Nunca mais vão rir de mim, nunca mais!". Desde que sua mãe morrera, em meados do ano anterior, o garoto se apegara ao brinquedo. Levava-o a todos os lugares. Na sua antiga escola era comum ver o pequeno caminhando, na hora do recreio, com o urso debaixo do braço. Era a ele que confidenciava a saudade arrasadora que sentia da mãe. Dudu tinha sido o último agrado que ganhara dela, poucos dias antes do acidente. O pai tentara por vezes levá-lo a psicólogos, mas o menino mantinha-se sempre calado. Só o ursinho sabia o que se passava naquela alma tão jovem e tão sofrida.

O pai sempre fora distante. Um homem fechado em seus próprios negócios e afazeres, com pouco tempo para a família. Já a mãe fora um raio de sol em uma casa gélida. Ela era a responsável pela criação do menino, era com ela que ele passara todos os seus bons momentos. Mas, agora que ela se fora, como transpor a barreira que existia entre o homem e seu filho? E o garoto se apegara ao urso, um objeto inanimado que ganhou vida em sua imaginação. O pai, obviamente, desaprovava o modo infantil de lidar com a dor.

Desde o acidente, o menino tinha pesadelos constantes. Acordava no meio da noite revivendo a morte da mãe, sua ausência, seu enterro. E sempre alcançava o ursinho a seu lado e o abraçava forte, algo que, de uma certa forma, o confortava e acalmava. Sentia-se em pânico quando perdia de vista o brinquedo, mesmo que fosse somente por alguns instantes. O urso era seu melhor amigo.

E assim fora até o pai decidir mudar o garoto de escola. O menino foi transferido para uma escola militar, que, na visão paterna, era o lugar ideal para transformar seu filho frágil e superprotegido em um homenzinho. O garoto não gostou da escola desde o primeiro momento, quando foi visitá-la e conheceu homens e mulheres secos e formais, professores e professoras. E não gostava também da idéia de largar sua outra escola, onde já havia construído um refúgio só seu. A ordem do pai fora inquestionável: "O urso fica em casa, você está muito grande para agir como um bebê". O menino sofreu com a ansiedade da separação semanas antes do ano letivo começar. Mas no primeiro dia de aula, saiu de casa com as mãos vazias.

A escola era um terror. Mestres rígidos, rituais estranhos, coleguinhas que arrumavam a todo momento um motivo para testá-lo. O garoto sofria sozinho, sem o seu melhor amigo a quem contar o que ia em seu coração triste. Uma semana foi o máximo que aguentou. No dia seguinte, colocou o urso bem escondido no fundo da sua mochila e lá se foi para a escola odiada. Talvez pelo zelo com que cuidava da mochila, talvez por puro azar, os colegas descobriram o brinquedo e puseram-se a rir e a humilhá-lo. Arrancaram o brinquedo de suas mãos, jogaram-no para todos os lados, zombaram daquele urso tão infantil, que não caía bem a um rapazinho da escola militar. Ele aguentou tudo encolhido num canto, sentindo uma raiva crescente do mundo e de todos. Ao chegar em casa explodiu num choro violento. Descontou toda a sua revolta no ursinho, sem dó, sem compaixão. Arrancou-lhe os olhinhos e um dos braços pensando: "Nunca mais vão rir de mim. Nunca mais! E a culpa é sua. Urso idiota! Urso estúpido. Eu já sou grande e por sua causa me chamaram de criança. Eu te odeio". E foi assim antes de atirar o ursinho no jardim.

Naquela noite teve sonhos agitados. Ouvia a mãe lhe chamando, o pai sumindo num nevoeiro e o som das risadas das crianças da escola. Acordou de sobressalto chorando, coração acelerado, aperto no peito e soube exatamente o que fazer. No escuro levantou, saiu do quarto descalço e caminhou pelo longo corredor e pelas escadas. A porta da casa se abriu. O menino andou na chuva, que agora caía fina, até o canteiro de rosas, as preferidas da sua mãe. Abraçou o urso encharcado e maltratado enquanto dizia: "Vem Dudu, eu vou te levar pra casa, você vai ficar bom, eu nunca mais vou te abandonar, eu prometo".

Boy with a Teddy Bear, de Axel Torneman

3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse... [Responder comentário]

Ainda bem que meu xará urso teve um final feliz. :)

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Eita! Uai, você fala isso e agora eu vou começar a te chamar de Dudu! :)

Bia disse... [Responder comentário]

Apesar da tristeza que o envolve, é um lindo conto, Ana... infelizmente, ainda existem muitos pais como o desse garoto que, em meio à rigidez, não sabem como dialogar...

Abraços... apareça!

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