terça-feira, 15 de setembro de 2009

Fim

Naquele dia, seus olhos não se abriram. Aterrorizado pela cegueira súbita, o dono dos olhos, que há muito tempo vivia numa cama de hospital, sem perspectivas e sem esperanças, chorou e se lamuriou da sua má sorte. Já debilitado pela doença terminal, não imaginava que aquela cegueira era só o começo de uma verdadeira revolução, que estava em progresso dentro de si.

Tudo começou com o despertar do seu cérebro, que, cansado de se sentir obsoleto, resolveu assumir o controle da realidade. Começou, então, cortando qualquer contato visual com o mundo exterior. Já estava por demais exausto de ver imagens de uma vida triste e sofrida em um mundo que sempre fora egoísta, sujo e caquético. Pouco tempo depois, cortou a fala e a audição, encerrando a vida em um mundo escuro e silencioso, algo que deixou seu dono bastante angustiado. Por fim, eliminou a dor.

O cérebro, então, em um último ato grandioso, começou a transmitir a vida daquele senhor, como num flashback. Nesse mundo particular, a consciência que ainda vivia assistiu aos melhores momentos de sua existência. Como se houvesse apertado uma tecla de retorno, cada instante de felicidade foi revisto, cada sorriso, cada vitória, cada alegria revisitada. A emoção do primeiro filho, do primeiro emprego, da primeira namorada, do primeiro dia de aula... E quando as memórias chegaram aos primeiros dias de vida e somente se ouvia uma voz de mulher entoando uma canção de ninar, a consciência se apagou. E ele, então, se foi.

Imagem retirada de http://www.redbubble.com/people/jackieliao/art/724305-3-dandelion

3 comentários:

entremares disse... [Responder comentário]

O fim... ou o principio?
Deixa-me contar-te uma história.

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Há certos sonhos que, em boa verdade, nem se deveriam chamar de sonhos; era essa a conclusão a que estava a chegar, depois de tantas vezes se sentir a adormecer, a acordar, novamente a adormecer, novamente a cordar...
A dada altura, perdeu por completo a noção – estaria acordado... ou a sonhar ?
A diferença era, por vezes, demasiado ténue.
Olhou em redor.
Aquela imagem recorrente de um quarto branco, de mobilia austera e um vaivém constante de vultos a deslocar-se por trás de uma divisória de vidro fosco... já lhe era familiar, um sonho inúmera vezes repetido.
Por várias ocasiões se lembrara de tentar indagar a alguém o significado daqueles sonhos... quase todos eles localizados em quartos brancos e longos corredores, a fazer lembrar um hospital, uma escola antiga, ou mesmo um convento.
Nunca se proporcionara.
De quando em quando, rostos familiares surgiam-lhe no campo de visão; a esposa, o irmão Artur, o velho Zeca do talho, até o padre Afonso um dia por ali aparecera – de repente, deu consigo a pensar que havia algumas pessoas que via agora mais amiúde, em sonhos... do que na realidade do dia-a-dia.
O único senão – existe sempre um “mas”, mesmo nos sonhos – consistia na total ausência de som, que é como quem diz... todos aqueles sonhos eram do tempo do cinema mudo; as personagens mexiam os lábios, gesticulavam, moviam-se de um lado para o lado... mas nada de palavras, nada de música de fundo, nada de ruídos ambientes – um pouco aborrecido, sem dúvida.

Suspeitou que estava acordado.
Não tinha a certeza... mas as cores do quarto pareciam-lhe talvez um tudo nada mais vivas, ou até poderia ser simplesmente o sol a entrar pelas janelas abertas. Fosse como fosse, um odor característico a primavera espalhava-se por todos os recantos, demasiado intenso para provir do ramo de flores que alguém colocara sobre a mesinha de cabeceira.
Malmequeres, talvez. Bom gosto.
Através dos olhos semi cerrados, conseguia vislumbrar duas figuras, uma masculina e outra feminina... – ela sentada na ponta da cama, parecia ser a esposa, o homem não o conhecia.
A esposa? Bem... talvez não... o penteado era diferente... e assim vista de lado, até parecia uma pessoa... bastante mais velha.
O homem? Não se lembrava de alguma vez o ter visto – uma bata branca, daquelas usadas pelos médicos – seria algum médico ?
Conversavam.
- Eu sei, doutor... é claro que eu compreendo... mas sabe perfeitamente que este quarto tem mais condições... a enfermaria não é...
- Joana... Joana... – dizia o homem de bata branca – vai ver que a enfermaria é tão boa como este quarto... e a Joana poderá até vir visitá-lo mais vezes... o horário é mais alargado...
- Doutor... mas este quarto é tão ... luminoso, tem tanta luz... estas janelas... as enfermarias são tão escuras... o meu Luis gosta tanto de ver o sol...
- Joana... já conversámos isto, lembra-se ? O Luis não vê o sol... aliás, ele não vê nada, mesmo quando lhe parece a si que ele está com os olhos abertos... são só reflexos... eu já lhe expliquei, lembra-se ? O luis não nos vê... não nos ouve... o Luis está só a dormir...
- Mas doutor... ele pode acordar a qualquer momento...
- Joana... o Luis está em coma profundo ... há doze anos...lembra-se ?
- Doutor... mas ele vai acordar, eu sei disso...
- Está bem, Joana, está bem...

Vini disse... [Responder comentário]

Muito bom!

Guilherme Pereira disse... [Responder comentário]

Caracas que visão diferente.. bom!!! Bjs

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