sábado, 12 de setembro de 2009

A menininha

Uma menina magrinha e bem loirinha, que ainda não tem idade para ler ou escrever, é carregada no colo, pela mãe, por um corredor longo de uma casa do interior. A mãe canta musiquinhas de ninar enquanto vai e volta no mesmo caminho e a menina, sem sono, canta junto com ela. Horas depois a garota acorda, já sozinha em sua cama, sob um cortinado branco que a protege dos muitos pernilongos.

Agora a menina está chegando a uma casa vizinha, branca e azul, entra na varanda e vê um senhor descansando em sua espreguiçadeira. Ele a vê e a chama, já com um sorriso enorme e ela corre pro colo do avô que canta: "Vem cá, menininha bonitinha, macaquinha do vovô!"

A menininha voa pela calçada no seu velocípede verde, já um tanto pequeno para uma garota que cresceu muito no último ano. Chega a um jardim enorme, em frente a uma Igreja tão familiar e a todos que encontra faz um pedido: "Me dá um gato?"

Dentro de um opala branco a menina se aconchega em cima do porta-malas, de encontro ao vidro, observando o mundo e as pessoas e coisas que nele habitam. Minutos mais tarde ela revê a casa de fazenda tão conhecida sua. Ela agora monta no seu cavalinho e vai acompanhando os adultos, com um medo de pegar o caminho que vira à direita, porque sabe que ali o cavalo sempre empaca na frente da casa do vaqueiro, em busca de sombra e também se aproveitando da sua pequena amazona inexperiente.

A menina está em frente a sua casa, de olhos e ouvidos atentos, de coração acelerado, esperando que os carros cheguem. Assim como em outros verões, a comitiva que vai chegar traz muitos dos seus primos e muita alegria para os próximos dias.

Acordo com o despertador tocando, ainda com a imagem da menina magrinha e loira saltando na minha mente. Já faz tanto tempo! A menina cresceu, estudou, virou bióloga, mora em São Paulo, conseguiu seu próprio gato, mas ainda morre de saudades do colo da mãe, da casa, da fazenda, do velocípede voador, e, principalmente, do avô na sua espreguiçadeira, com seu sorriso largo!

8 comentários:

Matheus disse... [Responder comentário]

a menininha lorinha eh vc? meldels, seu cabelo fico tao escuro, milagre da tecnologia? e eh tao triste sentir falta de alguem que ja se foi!! =/... belo texto anna xD

Lu disse... [Responder comentário]

Que lindo, Ana!

Vini disse... [Responder comentário]

Muito lindo!
*.*

entremares disse... [Responder comentário]

- Tenho medo…
- Não tens nada medo… eu estou aqui ao teu lado.
- Mesmo assim… e tu sabes voar muito bem… e eu não.
- Gilberto… não olhes para baixo, olha só para mim. Não confias em mim?
- Claro que confio, Fernão… mas tu és tu, e eu sou eu…
- Meu querido irmãozinho, se eu consegui… tu também vais conseguir…
- Isso queria eu… mas tu és o Fernão, és famoso, até escreveram um livro sobre ti… e eu sou só o Gilberto, o teu irmão mais novo, nada famoso e ainda por cima… medroso.
- Tu não és medroso. Não acreditas em ti próprio o suficiente, é só…
- Só? Quantas penas já perdi, com todas as quedas que dei? Já parti o bico, já torci as patas, já tentei tudo… mas não consigo…

Fernão Capelo Gaivota olhou para o irmão, frágil e de aspecto desamparado. Também ele próprio já fora assim, antes de descobrir o prazer sublime de voar. O céu azul deixara de ser um oceano desconhecido e passara a ser o seu refúgio, o local calmo para onde fugia sempre que precisava de um pouco mais de silêncio, longe dos grasnidos do bando.
Mas tudo isso levara o seu tempo, tudo isso custara um número interminável de quedas, a expulsão do bando, a solidão desgastante dos dias inteiros a voar sozinho, da alvorada ao anoitecer, tentando subir mais alto, descer mais rápido, curvar mais perfeito.
Chegara agora o tempo do seu irmão mais novo, Gilberto Capelo Gaivota - o tempo para o primeiro voo, o dia para a conquista da liberdade, o dia em que verdadeiramente se iria transformar numa ave, vencer as alturas, transpor os medos, ser gaivota…

Gilberto contemplava estarrecido o mar, desfazendo-se em espuma na base da falésia, muitas dezenas de metros abaixo. Só a visão das colunas de espuma a erguer-se, furiosas, rugindo como a tempestade, lhe metia medo. E nem os incentivos do irmão o faziam sentir melhor.

- Olha… vamos fazer assim… - animou-o o irmão mais velho - Eu salto contigo, está bem? Saltamos os dois juntos… eu vou ao teu lado, dou-te instruções… vais ver que assim é mais fácil…
Gilberto agitou o bico, desconsolado.
- Está bem, está bem… eu vou… mas por favor… não te afastes de mim, está bem?
Fernão puxou-lhe as penas da asa com o bico, carinhosamente.
- Claro que não me afasto de ti. Sou o teu irmão… estarei sempre aqui contigo…

Um passo mais… e o abismo ali ao lado, à distância de um pequeno salto. Depois… depois seria só abrir as asas, tentar controlar a queda, respirar fundo e … prazer. Sim, principalmente isso, tentar descobrir o prazer de voar.

Saltaram os dois.
Durante breves instantes, permaneceram de asas coladas ao corpo, ganhando velocidade.
Foi então que Fernão gritou para o irmão.

- Não consigo abrir a asa. Não consigo!
Gilberto olhou para o irmão, uma das asas aberta e a outra colada ao corpo, imobilizada.
- Fernão… o que se passa? Abre as asas…
- Não consigo, Gilberto, não consigo. É como se estivesse presa… salva-te, afasta-te de mim, ou cairemos os dois…
O pequeno Gilberto, já de asas abertas, batendo furiosamente para reduzir a velocidade, debicava desesperado a asa imobilizada do irmão, tentando libertar-lhe os movimentos. mas a asa continuava inexplicavelmente sem se mover, apesar de aparentemente nada a prender.
(continua...)

entremares disse... [Responder comentário]

(...continuação)

- Gilberto Capelo Gaivota… larga-me … e salva-te. Não te consegues ainda sustentar a ti próprio, quanto mais aos dois… salva-te…
O irmão nem lhe ligou. Descobrindo forças insuspeitas, redobrou os esforços. As asas abertas, cansadas e doridas, iam reduzindo aos poucos a velocidade da queda, enquanto que com o bico segurava firmemente o corpo do irmão.
- Não… nem pensar… eu consigo… vais ver… eu consigo…

A superfície do mar, ao longe serena e espelhada, rugia agora de perto, as ondas empurradas pelo vento a desfazer-se contra a falésia. Uns segundos mais e tudo estaria terminado.
Mas Gilberto não desistiu.
Inclinou o corpo para a frente, para oferecer a máxima resistência ao ar. Inchou o peito de ar e aumentou o ritmo do bater das asas. Deixou de as sentir, a dor a ultrapassar os limites do possível.

Lentamente… a queda abrandou. Mergulharam os dois, lado a lado, ainda unidos num abraço.

Minutos depois, voavam os dois lado a lado, batendo ritmadamente as asas.

- Fernão…
- Sim, Gilberto?
- Tu não estavas mesmo com a asa presa, pois não?
- …
- A sério… podes contar-me… não vai fazer diferença, agora que já aprendi a voar… mas conta… estavas a fingir, não estavas?
Fernão olhou para ele e sorriu-lhe.
- Ora, ora, irmãozinho… se não vai fazer diferença… porque queres saber?
- Porque… porque preciso de saber, é só…
- Olha Gilberto… em vez de te responder… digo-te simplesmente… que o teu primeiro voo foi muito mais perfeito que o meu… acreditas?
Gilberto não lhe respondeu.
Não acreditava… mas pronto. Se o irmão mais velho preferia assim… pois que assim fosse.

Sara disse... [Responder comentário]

Adorei o seu texto!!! Já me emocionei e chorei ao relembrar a minha infância...

Gostei do seu blog e prometo cá voltar :)

Beijinhos

Bia disse... [Responder comentário]

Que lembrança maravilhosa, Ana Lucia! Também gosto de falar sobre minha infância no meu blog...a sua deve ter sido muito bem aproveitada!

Também tenho um gato, o Merlin, há nove anos... meu pequeno companheiro. O seu (se for o da foto na sidebar), é lindo!

Gosto muito de Lô Borges, Beto Guedes, Milton Nascimento, e MPB, em geral... música boa! Fico feliz que possamos compartilhar nossos gostos, aqui!

Muito obrigada pela visita, espero que volte mais vezes... também vou seguí-la.

Grande abraço, e bom domingo!

Fabio disse... [Responder comentário]

Que bonito momô *-*
velocipede voador.. ah ta
auheuahea

Related Posts with Thumbnails