sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Eu acreditava...

A gente cresce e a cabeça muda que é uma coisa louca! Quando eu era pequena, tinha certeza que minha mãe sabia quando eu contava uma mentira. Sim, porque ela dizia: "se voce mentir eu vou saber, hein!". E acabava sabendo porque a mentira era tão carregada de medo e culpa que eu devia gaguejar, fazer cara de fuinha, me entregar logo. Aí, algumas vezes, vinha uma boa palmada. Ela diz que eu invento isso e que não me dava uns tapinhas não... ahhh, mas dava sim! E acho até que a palmada tem que ser reconhecida como um recurso didático incrível, porque tem criança que chora e falta implorar por uma! E tem coisa mais chata que manha infantil? Um amigo me contou que um dia fez tanta manha que foi pro castigo. Aí ele encostou na janela e disse que ia se atirar lá do alto. O pai dele falou logo: "Se você não morrer, vai apanhar!". Ele pensou melhor e achou que não era um bom negócio. Uma outra amiga das antigas me disse que a mãe dela colocava todos os meninos merecedores de palmadas/chineladas no paredão da casa. Aí passava dando uma palmada/chinelada em cada uma. E que as crianças lá já estavam tão acostumadas com o castigo que enchiam o short com meia, roupa e tudo mais que fosse eficiente para "afofar" o traseiro e não sentir nadinha do castigo! Mas voltando ao começo, quando eu falei da cabeça de criança: gente pequena tem cada idéia maluca! Eu ficava muito intrigada por certas coisas do mundo. Por exemplo, quem decidia com quem a gente devia casar? Eu fiquei pensando nisso por horas e cheguei à incrível conclusão de que a gente devia casar com quem conhecia, porque era mais fácil e prático. Na verdade eu tinha certeza que o certo devia ser irmão casar com irmã, porque já viviam mesmo na mesma casa e depois do casamento o que mudava era só dividir a comida (tadinha!). Aí quando um irmão brigava comigo eu pensava: você me paga, vou casar com meu outro irmão e você vai ficar sozinho pro resto da vida! Não sei de onde tirei essa idéia estranha, mas assim foi. Outra coisa que eu tinha certeza é que era possível se comunicar com os animais. Eu acreditava de verdade que os nossos bichinhos de estimação poderiam nos entender racionalmente. E uma vez, brincando com o meu gato, o bichinho me unhou e eu não tive dúvida, unhei ele também! Não muito tempo atrás, o meu gato atual subiu na minha cama e mordeu meu dedo. Eu olhei pra ele e falei: ahh seu safado, você me paga! Fui lá e mordi a orelha do bichano, em retaliação, e acabei engolindo um monte de pêlo. Resultado: hoje sou super hiper mega alérgica a gatos. Uma vez eu cismei que falar inglês era o mesmo que falar as palavras ao contrário, letra por letra. E eu ficava falando pras pessoas que meu nome em inglês era Aiculana. Também acreditava, como já contei AQUI, que todos os livros vinham em branco e que a história era um pouco diferente para cada pessoa que a lesse. Eu realmente inventei uma hipótese que a história só aparecia no livro na hora que eu virava a página. E eu ficava testando essa idéia virando as páginas super rápido, ou então fingindo que não tava nem aí pro livro e de repente pulava em cima dele e abria em uma página qualquer para ver se conseguia pegar o momento que as letras "apareciam"! De onde eu tirei isso, meu Deus? Eu tinha bonecas daquelas antigas, que fecham os olhinhos quando estão deitadas, e suspeitava que as bonecas ganhavam vida de madrugada. O meu pânico de acordar e ver as bonecas me olhando, piscando pra mim, era tão grande que eu virava a cabeça das pobres para trás, antes de dormir. Hoje em dia isso me parece mais bizarro do que ver uma boneca piscando!

4 comentários:

entremares disse... [Responder comentário]

Oi, Ana Lucia...

Queria dizer-te tanta coisa acerca do que escreveste... que o tio google não o permitiria, de certeza.

Em primeiro lugar... conheces aquela sensação de estar num lugar, a observar desinteressadamente o que te rodeia... e de repente navegares no interior de uma história, acabadinha de inventar, onde és a personagem principal e todos os que te rodeiam são os figurantes?

Sorri, quando li o que escreveste sobre as páginas em branco, que só se escrevem quando as viramos, ávidos e ansiosos. Fez-me logo lembrar os livros mágicos, aqueles que ao ser abertos numa página ao acaso, exibiriam sempre a resposta adequada aquilo que pretendessemos saber.

É... o nosso dia-a-dia acaba sendo como o teu livro de páginas em branco. Talvez alguns acreditem que já está tudo escrito. Pessoalmente, prefiro rabiscar eu mesmo... e todas as noites, ficar a imaginar o que poderei escrever na manhã seguinte...

( Coitadas das tuas bonecas, elas só estavam a olhar para ti, pedindo companhia... )

:)

Beijos
Rolando

Vini disse... [Responder comentário]

Você já era loka desde pequena?
Meldels!

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Olá Rolando! Realmente a vida é muito mais interessante quando a enxergamos como um livro em branco. Não gosto muito dessa história de destino, coisas programadas! E sobre as bonecas, a culpa é daquele filme horrível do Chucky, o Brinquedo Assassino!!

Um abraço!

Eduardo Loureiro Jr. disse... [Responder comentário]

Ana, deliciosas as crenças de então. Fiquei curioso sobre as crenças de agora. :)

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