sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Nascimento

O pé afundou na areia mais uma vez. Gostava daquele cenário. O mar calmo e o fim de tarde transmitiam uma calma necessária, adequada à seriedade do momento. Por enquanto o que precisava fazer era esperar, algo com o qual já estava acostumada há muito tempo. Olhou para trás e viu as pegadas na areia se desfazerem com a chegada da maré. Pensou em como se acostumara ao seu trabalho. Sempre fora ela a realizá-lo, sem descanso, sem pensar, mas ainda se admirava com a imprevisibilidade dos momentos finais. Olhou pela passagem. O pequeno garoto deitado na cama de hospital ainda respirava com dificuldade, mas logo estaria ali, naquela praia imaginária. Se tinha algo que lhe dava prazer em realizar era escolher o ambiente do "nascimento". Vasculhava a memória dos enfermos ou dos que logo estariam fazendo a transição e escolhia o local certo. Porque cada um deles tinha uma lembrança doce, um local que trazia boas recordações, um lugarzinho que inspirava confiança e paz. O do garoto era essa praia ao entardecer. Fora numa praia como essa que o menino passou os poucos bons momentos de sua vida curta, frágil e enferma. Era justo que na mesma praia ele atravessasse a passagem. E a Morte sentia-se bem ali.

Olhou novamente para a cama. O garoto já notava a sua presença, com curiosidade. A Morte sorriu e o menino olhou confuso para os lados, como se reconhecendo o ambiente. Ela esperou. Era necessário esperar. Todo nascimento é um turbilhão de emoções. Pensou nas infinitas vezes que realizou seu trabalho e como cada uma delas tinha sido diferente. Normalmente os amigos que já tinham feito a travessia esperavam do outro lado. Nessas ocasiões, a passagem era sempre iluminada e emocionante. Mas não seria assim hoje. Aquele garotinho não tinha ninguém do lado de cá. A tarefa de ajudar era inteira dela. Abriu mais o sorriso para ele. O menino levantou-se da cama e pôs um pé na passagem. Ela sabia que a experiência não seria dura para ele. Alguém tão novo e com tão pouca vivência não tivera tempo de criar raízes naquele mundo ainda. Talvez por isso as crianças fossem sempre mais corajosas, quando o momento chegava. O garoto andou pela praia, encantado com as pegadas na areia, e sorriu. A Morte estendeu os braços e disse: Vem, quero te mostrar um lugar! E o garoto foi, sem olhar pra trás.

Na pequena cama de hospital, o corpo do menino deu um último suspiro... e morreu.

5 comentários:

Depois dos 25, mas antes do 40! disse... [Responder comentário]

Ei Ana! Vim aqui ver seu blog e fiquei encantada com as fotos de Strasbourg! Que lindo!

Agora não estou no Brasil, e o Juntos pelo mundo está mais do que defasado nas minhas viagens, mas assim que voltar coloco tudo nos exios!

Vi que você gosta de livros, conhece o www.elasestaolendo.blogspot.com?
Vale a pena!

beijos

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Olá! Gosto muito dos seus dois blogs. Quando você atualiza o Juntos pelo Mundo eu fico sempre me imaginando na sua pele!! hahaha
E o que elas estão lendo eu já frequento há algum tempo sim! Muito legal!
Mas fique à vontade e volte sempre ao meu blog!
Um beijo!

Anônimo disse... [Responder comentário]

Oi, vi um comentário seu no orkut do Rodrigo Guabiaraba e achei que te conhecia de algum lugar, vc me lembra muito uma colega da ACM-BH/ICCP de 2001. Estou certa?Coincidentemente faço doutorado no mesmo lab do Rodrigo. Mila (Smile na ACM)

Eduardo Loureiro Jr. disse... [Responder comentário]

Bela história, Ana. Gostei da Morte compassiva.

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Oi Mila, sou eu sim! Fiz a ICCP 2001 mas perdi contato com quase todo mundo. Hoje faço doc aqui em SP. Tudo bem com vc? Um abraço!

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