sábado, 9 de janeiro de 2010

A porta das possibilidades descartadas

Um dia tive um sonho muito interessante. Sonhei que estava em frente a uma porta simples, sem nada de especial. Mas eu sabia que aquela era a porta que continha as possibilidades de futuro que eu descartei, simplesmente por ter feito novas escolhas. E apesar de ter me dado conta de que aquilo era só um sonho, foi com admiração que eu passei por ela e vi ali os meus planos de criança e adolescente. Claro que  quase todos eram megalomaníacos!

Em uma prateleira estava uma foto minha, vestida de astronauta. Lembro bem dessa fase! Quando pequena eu queria ser astronauta, para, assim como a Emília de Monteiro Lobato, visitar outros planetas. Mais tarde esse desejo se intensificou, quando conheci Carl Sagan, Arthur Clarke e os maravilhosos livros: 2001 Uma Odisséia no Espaço, Contato e Encontro com Rama.

Em seguida, uma foto em que eu ganhava o prêmio Nobel de Literatura. Sim, eu sempre fui de extremos! Não bastaria escrever, tinha que ganhar o maior prêmio que existe também! Em outro retrato lá estava eu, dona de uma editora. Por muito e muito tempo eu queria trabalhar com a publicação de livros. Na verdade eu queria ser a pessoa que lê os livros e escolhe os que serão publicados. Ler vários livros e ainda receber para isso?? Seria sensacional!

A fotografia seguinte era de um futuro que eu sonhei dos 12 aos 16 anos. Eu com o uniforme do Brasil e a medalha de ouro numa olimpíada. É, eu joguei vôlei por alguns anos, mas sempre fui baixa pro esporte, apesar dos meus 1,75m. E como sou fracote, sempre arrumava uma contusão. Não daria certo mesmo.

Na próxima foto, eu de novo, em cima de um barquinho pequenininho do Greenpeace, em frente a um navio gigante. É verdade que eu quis ser oceanógrafa, logo na época do vestibular. Mas a vontade passou quando eu pesei os prós e contras. Mesmo porque a oceanografia estuda um tanto de coisas a mais, e eu não viveria de golfinhos e baleias fofíssimos, mas também de cheiro de peixe, água suja de petróleo, sol, calor, etc...

Já num futuro mais próximo do meu, a imagem seguinte era um mosaico de fotos minhas de jaleco e roupas de laboratório. Bom, parte desse futuro ainda vale, porque eu virei mesmo uma cientista. Mas nas fotos eu usava roupas de proteção que só quem trabalha com as doenças mais perigosas do mundo usam. Dos meus 18 anos até os 21 eu sonhava em trabalhar num desses laboratórios em que se usa roupa completa de astronauta (olha o astronauta surgindo de novo em outra fase), onde qualquer contato com o ar significa risco de vida. Essa era eu na minha fase radical. Eu até comecei a fazer bacharelado em Microbiologia, mas outra área de pesquisa ganhou toda a minha atenção.

E, por fim, lá estava eu, novamente ganhadora de um Nobel, dessa vez de Medicina. Dizem que quem ganha o Nobel são só as pessoas que fazem as descobertas de ciência básica de uma área que influencia várias outras. Eu trabalho com algo muito específico em Diabetes, então não sou do tipo escolhida para grandes homenagens.

A minha "porta das possibilidades descartadas" continua lá, cada dia se enchendo mais e mais de fotos do que poderia ter sido. E eu fico imaginando, onde é que as minhas escolhas vão me levar?


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