segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Pindaíba generalizada

Ontem eu estava fazendo umas continhas de quanto dinheiro eu precisaria para ir em um congresso que vai acontecer em poucos meses e de quanto dinheiro eu teria na minha conta na época. Foi aí que ele veio. O Déjà vu mais esclarecedor dos últimos tempos. Senti que aquela cena, aquele desespero na conta de cada centavo, já tinha acontecido comigo antes. BINGO. Não deu outra. Da mesma forma que a vida da gente passa pelos nossos olhos logo antes da gente morrer (é o que dizem, né...), todos os momentos de angústia monetários que eu já vivi desfilaram na minha mente. Um colega até perguntou se eu estava bem, já que minha cara ficou meio que de choro. Eu só disse: "Parece que minha vida inteira eu estou contando moedas para tentar fazer algo". E é verdade! Desde a graduação eu contava moedas o ano todo para ir ao Congresso de Bioquímica. Depois, no mestrado, eu também economizava o almoço para pagar a janta, para conseguir ir aos encontros científicos. Agora, no doutorado, apesar de termos uma "ajuda de custo", eu percebo que estou sempre a contar e contar centavos. Para ir no Congresso na Europa no ano passado, foi uma operação militar! Era um tal de economizar comprando os produtos mais baratos no supermercado, almoçando no Bandeijão, com a calculadora ali do lado no fim do dia, refazendo as contas, pensando na pindaíba! E agora, eu me vejo na mesmo posição. Não só quero ir para o próximo Congresso na Europa, no ano que vem, como gostaria de ir a um esse ano. O problema é que os Encontros grandes e válidos são caríssimos e, normalmente, internacionais. Eu também tenho vontade de fazer um estágio fora do Brasil, durante o meu doutorado, o chamado "doutorado-sanduíche". Mas eu entro em pânico só de pensar de onde vou tirar dinheiro para viver apertadíssima fora daqui, e além de tudo pagando aluguel do apartamento em SP. Mas que é possível, é... tanta gente passa por isso! Eu penso que teria uma úlcera, um ataque cardíaco fulminante, ficaria tantan, só da stress de ter que passar por todo esse aperto. Mais fácil seria um doutorado para fazer sanduíche, num McDonald's qualquer.

Alguns dias atrás, uma pessoa que quer vir para São Paulo, de outro estado, me perguntou como é viver aqui com bolsa de doutorado. E eu escrevi uma senhora carta, abri o jogo. Falei da dificuldade de se viver de bolsa de pesquisa, do fato da gente morar mais ou menos, de trabalhar em excesso, de ficar meio bitolado até sobre o que se passa no mundo, já que a ciência ocupa a maior parte do nosso dia a dia. Mas também falei das oportunidades que aparecem, de como esse é um campo de quem realmente adora o que faz e de como a gente, às vezes, tem que abrir mão de uma coisa pra fazer outra. Abre-se mão de um passeio no fim de semana para fazer um experimento. Abre-se mão de ver a família com regularidade para conseguir tocar a pesquisa de maneira eficiente, morando em outro estado. Abre-se mão de ter um horário normal, para conseguir resultados satisfatórios. Por isso é preciso amar o que se faz. Mas para aqueles que ainda assim embarcam nessa, é também uma oportunidade de mergulhar em conhecimento. De se sentir parte do mundo que descobre o mundo. "E como é para você?" ela me perguntou. Eu so poderia responder uma coisa: "Eu faria tudo de novo!". E é verdade. 

Mas que a pindaíba dessa bolsa dá uma raiva, isso dá...

0 comentários:

Related Posts with Thumbnails