sexta-feira, 19 de março de 2010

Filosofando

Linda foto tirada em Veneza - Letícia Labriola

Uma vida é muito pouco. E essa conversa é séria! Uma vida é tempo de menos para tudo que eu queria fazer. Porque o passar do tempo muda tudo... Hoje eu vejo claramente que poderia ter escolhido uma gama de outras profissões e que me daria bem com quase todas. Mas existe em mim essa dualidade que só poderia ser preenchida pela ciência, pela descoberta e maravilhamento e, por outro lado, essa vontade de viajar, de ver, de documentar, de sentir, de conhecer, que o jornalismo também poderia me dar. Assim como a Cris, do blog Colecionadora de Palavras, eu também quis, um dia, há muito tempo atrás, ser dessas jornalistas que viajam o mundo todo e manda a reportagem, uma correspondente. Algo do tipo repórter do National Geographic ou Discovery Channel.. talvez até Canal Cultura, qualquer coisa que me permitisse ir além desses meus limites geográficos. Mas eu também tinha sede por entender como o TODO funcionava. Quando dava aulas, meus alunos riam frequentemente dos meus acessos de carinho ao falar de processos bioquímicos como a fotossíntese e o metabolismo celular: "Gente, isso é lindo demais, é a coisa maaaais linda do mundo, que perfeição, que maravilha!". Óbvio que a grande maioria me achava meio doidinha de gostar de Bioquímica e "essas coisas aí que ninguém entende". Mas, por mais que eu esteja meio que no olho do furacão em termos científicos e esteja me realizando com descobertas e coisas relacionadas, eu sinto falta de ver o mundo. E não adianta dizer: "É só viajar!". Não funciona assim. Eu quero viajar mas não tenho essa possibilidade financeira e mesmo de tempo. Eu quero viajar e conhecer. Eu quero conhecer e entender. Eu quero entender e me maravilhar com o funcionamento de tudo. E eu quero ter uma casa para onde voltar, quando eu cansar de bater perna pelo mundo.
Hoje, no espanhol, eu conversava com duas amigas mais velhas, que já tem filhos formados na faculdade, e elas me perguntaram porque eu já mudei tanto com apenas alguns anos de formada. Mudei de trabalho e de cidade algumas vezes nos últimos anos. Eu disse que simplesmente precisava mudar, porque não estava feliz, mesmo das poucas vezes que eu parecia estar alcançando uma certa estabilidade. Aí elas quiseram saber como eu tive coragem de largar tudo, assim de um pulo, e sair, literalmente, do interior, pra BH e pra SP em apenas dois meses, ainda por cima largando tudo e todos que eu conhecia, inclusive um relacionamento. Nessa hora até eu fiquei confusa. Eu pensei.. pensei.. e só consegui ver uma resposta: "Porque eu gosto demais de mim para aceitar o que eu tinha e me contentar com aquilo". E é verdade. Se eu não gostar de mim e procurar o melhor, quem vai fazer isso em meu nome? Uma delas comentou que não sabe se teria coragem de mudar assim tão radicalmente, e tão abruptamente. E a outra retrucou: "Mas aposto que hoje você pensa que gostaria de ter tido essa coragem para mudar certas coisas quando era mais jovem". E a outra amiga concordou. Fiquei pensando nisso. Tenho um horror de pensar que posso ficar me remoendo por não ter feito coisas que eu realmente queria fazer. No momento estou exatamente no lugar onde deveria estar, fazendo exatamente o que deveria fazer. Disso eu estou certa. Mas de vez em quando me bate essa urgência de que tem tanta coisa que eu PRECISO fazer e que não vai dar tempo. Tudo por culpa do tempo! Ou a falta dele!
Além do controle da própria vida, cada um deveria ter o "fim", o "destino", o "desfecho" que gostaria ter. Eu ficaria feliz viajando, conhecendo, entendendo o mundo. Como no livro 2010, de Arthur Clark, onde ele explica o final de 2001 dizendo que a consciência do protagonista foi incorporada em inúmeras outras provenientes de outros mundos e realidades, gerando um ser onisciente... e de repente ele teve a "compreensão de como as coisas funcionavam", que "tudo ficou tão claro". E se eu pudesse escolher, esse seria meu fim também. Mas, com sorte esse fim ainda há de estar beeeeeem longe, porque eu tenho um montão de coisa pra resolver por aqui também!

OBS: Acho que o livro "Comer, Rezar e Amar" (Elizabeth Gilbert) anda me influenciando um pouco. Logo que terminar de ler, deixo aqui as minhas impressões.

3 comentários:

Cristiane disse... [Responder comentário]
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristiane disse... [Responder comentário]

Ana, sabe o que eu acho? Que a gente sempre vai ser feliz é com a escolha que fez, seja ela ficar ou partir.

Claro, tem aquelas pessoas reclamonas para as quais TUDO é ruim, mas estou falando das pessoas normais. Garanto que estas duas pessoas quando olham para trás pensam: "Que bom que resolvi ficar e não partir, veja meus filhos" e etc.

Tem um texto do Rubem Alves que diz assim: "As pontes que eu construía para chegar aonde eu queria ruíam uma após a outra. Eu era então obrigado a procurar caminhos não pensados. E aconteceu por vezes que nem mesmo segui, por vontade própria, os caminhos alternativos à minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigado a fazer o que não queria."

O texto todo vale a pena, veja: http://www2.uol.com.br/aprendiz/n_colunas/r_alves/id190903.htm

Eu adoro este texto dele.

beijos

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

lindo mesmo, Cris! Ahhh, mas como eu queria ter mais possibilidade e tempo de viajar!

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