domingo, 11 de abril de 2010

Éramos cinco

Na minha casa éramos cinco. Cada qual do seu jeito e modo. Um pai ausente, uma mãe carente, dois irmãos perdidos e eu. Meu pai tinha seus sonhos e delírios de grandeza. Dele só lembro da voz grossa, da presença marcante e do jeito que me pegava no colo e jogava pro ar. Um dia ele saiu pela porta, em busca de uma vida melhor. E nunca mais voltou.

Na minha casa éramos quatro. Uma mãe doente, dois irmãos rendidos e eu. Minha mãe já foi, um dia, uma mulher forte. Lembro do seu cantarolar ao lavar a roupa dos que podiam pagar. Mas a tristeza cobra seu preço. E toda sua vitalidade e alegria se perderam quando meu pai se foi. E a doença se aninhou em sua vida. E, por fim, a levou.

Na minha casa éramos três. Um irmão drogado, uma irmã depressiva e eu. Meu irmão mais velho, por muito tempo, foi o meu melhor amigo. Aquele que sempre me levava pela mão e me dizia sim ou não. Ainda lembro da promessa que ele me fez de que sempre cuidaria de mim. Mas isso foi antes dele vender a alma para um demônio ladrão de vidas. E desde então, apesar de viver nas ruas, o meu irmão já morreu.

Na minha casa éramos duas. Uma irmã vazia e eu. A minha irmã foi um bebê tão lindo, que eu gostava de fingir que ela era uma das bonecas caras que eu nunca ia ter. O meu amor por ela era tão grande que me impediu de ver a moça frágil, triste e mentalmente doente que se formava. E para ninguém foi um grande susto quando ela, no único ato resoluto que já tomou, se matou.

Eu sou a filha de um pai distante e de uma mãe decadente. Sou a irmã de um rapaz vendido e de uma irmã desistente. Mas agora eu não tenho mais ninguém. Hoje, na minha casa, sou só eu.

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OBS: Tá certo, esse conto é realmente muito triste e deprimente. Nem sei de onde tirei isso. Às vezes só acontece da história já sair pronta da cabeça, sem lugar pra correções. E foi o que aconteceu nesse caso. Desde o começo, eu imaginei a narradora como uma sobrevivente, uma lutadora, alguém que vai seguir em frente, apesar de tudo. E, sabe-se lá o porquê, no final da história eu lembrei do desenho/animação Lilo e Stitch, quando eles falam: "Ohana quer dizer família. E família quer dizer nunca abandonar ou esquecer".

8 comentários:

Eric disse... [Responder comentário]

Oi Ana, triste mesmo. E muito bonito. Parabéns! Simples e direto.
Faz tempo que não escrevo nada (e nunca escrevi grandes coisas) mas textos assim fazem bater aquela vontadinha lá no fundo.
Até mais,
Eric

Sara disse... [Responder comentário]

Gostei Ana! Ficou lindo. Fiquei ate com vontade de escrever algo (como aliás costumo fazer, mas nunca publicar...) e realmente o dia proporciou-se a dar origem a um texto... este sim publiquei-o! Espero que goste :)

Fique bem!

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Olha, eu nunca soube que vc escrevia, Eric! Posta uma coisinha aí pra eu conhecer! Um beijo!

Sara, você sempre criando coisas novas! Claro que adoro suas novidades nos dois blogs!!! Uma ótima semana!

Eduardo Loureiro Jr. disse... [Responder comentário]

Oi, Ana! Fazia um tempinho que a vida não me deixava vir aqui. Vim hoje e encontrei esse belo conto. Parabéns!

Vini disse... [Responder comentário]

Que coisa... =o
Mas ficou muito bom, gostei!

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

Poxa... obrigada pelos comentários! Tô me sentindo a última batata do pacote!! :)

Cristiane disse... [Responder comentário]

Ana, muito bom o seu conto! Menina, como você escreve bem!!! Devem ser os inspirados encontro do "Clube dos Anjos" aos sábados...

Cristiane disse... [Responder comentário]

*inspirados encontroS :p

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