quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vida mansa

 "Leitura" - Renoir

Eu quero ser uma daquelas pessoas que, com cinquenta anos de idade, senta na sua biblioteca privada numa noite de inverno, numa escrivaninha de madeira boa de verdade, com um livro nas mãos novinho, capa dura, gigante (nada de versão de bolso)! Já vi tanta gente dizer que livro bom é livro usado, que dá pra gente imaginar por quais mãos aquele livro passou, que o livro tem uma "história" por ter pertencido a outro alguém. Que nada! Livro bom é livro novo, com cheirinho de coisa recém saída do forno, com capa dura para não amassar nunquinha e bem grandão que é pra encher as mãos e os olhos.

Eu queria ter o dom de escrever. A facilidade de colocar no papel uma história novinha, inventada, com pé e cabeça, que chamasse a atenção de muitos e cativasse outros tantos. Queria conseguir escrever algo que nem mesmo eu soubesse onde iria dar. Mas minha cabeça é marrenta e não gosta da imposição de ter que criar um mundo a parte. Só escrevo o que tenho vontade, quando tenho vontade. Já que não sirvo para escritora, pelo menos me encaixo perfeitamente como leitora. Voltando à minha cena futurista, na minha biblioteca imaginária, meu mordomo chamado James me traria uma caneca fumegante de cappuccino para eu bebericar (primeira vez que uso essa palavra, que emoção!) de vez em quando. E como a noite está fria, a cena precisa também de um cobertor de lã no colo e um gato esquentando meus pés. Ahh, mas como eu sou chique eu peço pro James acender a lareira, para o ambiente ficar mais acolhedor, e afofar a minha almofada.

E sem a menor dúvida, no futuro já existirá um virador de páginas automático. Porque nada me deixa mais irritada do que ter que tirar a mão debaixo do cobertor quentinho para virar a página do livro. O esforço e o choque térmico quase não compensam o prazer de ler. E, obviamente, já que o mundo estará tão evoluído, a história vai ter cheiro quando a gente quiser. Quem me dera ler "Como agua para chocolate" sentindo o cheirinho das receitas maravilhosas! Mas só pra cheiro bom, porque eu não quero ler coisas desagradáveis e ter a mesma sensação!
Por fim, quero uma caixa de lenços enorme, para quando eu engasgar de tanto chorar nos momentos mais dramáticos de certas obras, e um grupo de amigos que tenham lido exatamento os mesmos bons livros que eu, para que possamos nos reunir toda semana para um "chá das cinco"! Cortesia do James, claro!

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