domingo, 30 de maio de 2010

Livre-arbítrio

 
Ela morreu e foi parar num campo lindo, cheio de flores, com um sol brilhante que iluminava a paisagem paradisíaca. Logo encontrou seus pais e amigos já falecidos há tanto tempo. Todos ostentavam um ar de felicidade suprema, de maravilhamento. Todos vestiam roupas brancas, tão condizentes àquela realidade. Era tudo como sempre havia pensado que seria. "Eu sempre soube que o Céu era assim" pensou a moça antes de se juntar aos outros.

Ele morreu e foi parar em um lugar escuro, fétido e cheio de sofrimentos. Podia escutar coisas se arrastando na penumbra e ouvir gritos de dor e desespero ao seu redor. Não demorou muito para sentir a primeira pontada de uma lança de fogo que abria sua carne e torturava sua alma. No limbo ele urrou, chorou, pediu perdão por tudo que tinha feito ou pensado fazer. E um pensamento que sempre lhe voltava era: Eu sabia que viria para cá, quando morresse.

Ela morreu e avistou um túnel de luz que se estendia infinitamente. Dele vinha uma música tão linda que era impossível se afastar. E por ele, ela andou até encontrar faces amigas, que a saudaram e disseram que era um prazer revê-la, e que tomariam conta dela dali em diante. Palavras reconfortantes que ela já esperava, pois o que estava em sua cabeça naquele momento era: "Morrer é exatamente como eu pensei que seria!".

Ele morreu e foi parar num Parque de Diversões, cercado de brinquedos, balões, algodão-doce e pipoca. O cachorro que tinha fugido de casa há um tempo atrás também estava lá, e veio correndo quando o avistou. E ali os dias passavam, ora na companhia de amiguinhos, ora recebendo o carinho dos pais, mas feliz de saber que o Céu era do jeitinho que a avó tinha contado que seria.

Ela morreu e foi só isso. Não houve nada do lado de lá. Só a escuridão e o findar da sua consciência que elaborou um último pensamento, antes de se extinguir para sempre: Eu sempre soube que, com a morte, tudo acaba!

E Ele balançou a cabeça, mais uma vez, enquanto analisava a raça humana... mais uma vez. Liberdade de escolha fora o maior dos seus presentes, o mais nobre, o mais bonito, o mais divino. Que parte do livre-arbítrio eles ainda não tinham entendido? Valia para todos. Valia na vida. E, é claro, valia na morte.

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PS: Esse texto me lembra tanto de um filme chamado "Amor Além da Vida", lançado em 1998, que conta com o Robin Williams e fala exatamente das nossas "opções" ao morrer.
 
*Imagem: Nem precisava dizer que é um detalhe do famoso afresco do teto da Capela Sistina, de Michelangelo, né?

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

My Sister's Keeper / Uma Prova de Amor

Imagine que você tem uma filha de dois anos de idade, que, de uma hora para outra, é diagnosticada com uma forma rara de leucemia (leucemia promielocítica aguda). Os médicos dizem que ela, com sorte, chegará aos 5 anos de idade, mas somente sob um regime de quimioterapia violento que vai deixá-la doente na maior parte do tempo. Agora considere que nenhum doador de medula é encontrado no banco nacional e que nenhum parente é compatível. No auge do seu desespero, o médico da família sugere que através da fertilização in vitro é possível criar um embrião geneticamente compatível que possa ser implantado no útero da mãe e doar tudo que sua filha doente precisar, quando nascer. Você faria essa escolha para salvar sua filha?
Esta é a história inicial do livro My Sister's Keeper, de Jodi Picoult. Nele, o casal Fitzgerald tem uma criança 100% compatível que se torna doadora da irmã para toda e qualquer emergência. Quando a irmã mais nova (Anna) chega aos 13 anos de idade, a irmã que tem leucemia (Kate) apresenta falência renal e precisa urgentemente de um rim. Anna, percebendo que não caberá a ela um direito de escolha, vai a um advogado e abre um processo contra seus pais, pedindo emancipação médica, para ter o direito de tomar as próprias decisões médicas e não ter que doar um rim ou se submeter a procedimentos dolorosos e invasivos, cada vez que sua irmã precisa de um doador. A questão é abordada de todas as maneiras. O livro tem vários "narradores". Cada um mostra sua perspectiva e o porquê de ter chegado àquela decisão, naquele momento. E os argumentos são tão convincentes que é difícil tomar partido. O tempo todo vêm questões difíceis à nossa cabeça, como: É justo ter um filho para salvar outro? É certo que esse filho viva sua vida dependente da necessidade do irmão? Seria egoísmo que esse filho não quisesse mais se submeter a tanta dor e sofrimento quando seu irmão sofre de uma doença terminal? Qual é o limite entre o certo e o errado nessa situação?
Um livro lindo, cheio de dramas e emoções e que faz com que a gente caia num redemoinho de idéias, angústias e indagações. Tem quem o ache muito melodramático. Pode até ser. Mas a idéia do livro é boa e bem trabalhada, apesar da carga emocional. Claro que tem seus pontos "novela mexicana", mas nada que estrague a história. E, principalmente, é um livro que surpreende. Às vezes temos certeza de algo e nos posicionamos em defesa de um personagem. De repente, tudo muda! Isso porque você não sabe de tudo desde o início. O drama se apresenta aos poucos, o que faz a gente mudar de idéia e ficar na dúvida muito frequentemente! Ouvi o audiobook e posso dizer que era fácil me encontrar a caminho da USP sempre com os fones e sempre distraída. Passava da tristeza à raiva, da raiva à indignação, da indignação à alegria ou resignação a cada capítulo. E o final é um bolo de sentimentos à parte.
Infelizmente ainda não existe uma tradução desse livro para o português. Mas um filme chamado Uma Prova de Amor já foi lançado, e conta com a Cameron Diaz no papel da mãe das garotas. Vi o filme e achei bonito. Mas NÃO SE COMPARA ao livro. Mesmo porque eles mudaram coisas essenciais. Principalmente, mudaram o final, que é o que faz o livro ser tão impactante. Portanto, para mim o filme foi um tanto quanto decepcionante. De qualquer forma, segue o trailer abaixo!


Mas... para quem, assim como eu... adora um tipo específico de música melosa, essa logo abaixo (Feels Like Home, na voz de Edwina Hayes) é um prato cheio! Linda e com uma letra mais bonita ainda!


Feels Like Home

Somethin' in your eyes, makes me wanna lose myself
Makes me wanna lose myself, in your arms
There's somethin' in your voice, makes my heart beat fast
Hope this feeling lasts, the rest of my life

If you knew how lonely my life has been
And how long I've been so alone
And if you knew how I wanted someone to come along
And change my life the way you've done

It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I'm all the way back where I come from
It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I'm all the way back where I belong

A window breaks, down a long, dark street
And a siren wails in the night
But I'm alright, 'cause I have you here with me
And I can almost see, through the dark there is light

Well, if you knew how much this moment means to me
And how long I've waited for your touch
And if you knew how happy you are making me
I never thought that I'd love anyone so much

It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I'm all the way the back where I come from
It feels like home to me, it feels like home to me
It feels like I'm all the way back where I belong
It feels like I'm all the way back where I belong

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domingo, 23 de maio de 2010

"Pós-graduar"

 Retirado de http://www.phdcomics.com/comics.php

São 4 anos de doutorado. No primeiro ano eu acordava logo às 6 da manhã, tomava um banho demorado, um café completo com frutas, suco, leite, pães e frios, vestia sempre uma roupinha nova ou recém-lavada, saía de casa cheirosinha e dando bom dia para o mundo, para as árvores, para os pássaros, feliz de ter passado nesse curso de pós-graduação tão concorrido, me sentindo a última batata do pacote. Estudava todos os dias os experimentos realizados, estava com a literatura em dia, me sentia dona da situação, irradiava bom humor e educação.

No segundo ano eu já acordava às 7, tomava um banho de gato, vestia uma roupa meio velha, mas mais condizente com jaleco de laboratório e experimentos com animais, comia sucrilhos, pois era menos burocrático, saía de casa sempre ligeiramente atrasada, tentava ler os artigos científicos ainda do ano anterior, pensando sempre que em breve eu estaria em dia com a literatura, irradiava sono e preocupação, mas ainda sabendo que o que eu fazia era uma coisa linda, para poucos, e que contribuiria para o bem da humanidade.

No terceiro ano eu acordava às 9, porque tinha voltado do laboratório 1 da manhã daquele mesmo dia. Jogava tudo no liquidificador porque fazer vitamina é mais rápido, tomava banho, escovava os dentes e depilava, tudo ao mesmo tempo, saía de casa com uma roupa meio desbotada, com cara de pijama (será que não era um?) que eu tinha comprado para o meu primeiro ano de doutorado, andava até o trabalho com um olho na rua e outro nos artigos de dois anos atrás que eu ainda não tinha conseguido terminar de ler, carregava na mochila os 50 artigos mais importantes dos outros anos que eu precisava ler urgentemente, mandava uma mensagem para minha mãe dizendo que eu sabia que não falava com ela há quase 30 dias, mas que eu estava um pouco ocupada e assim que pudesse a visitaria, xingava o sol que era quente demais, a chuva que era muito molhada, os pássaros que faziam muita algazarra, o clima que era sempre muito quente ou muito frio, as pessoas que eram muito intrometidas, sempre perguntando com foi o meu fim de semana ou se eu estava bem. Andava pelo laboratório meio curvada, como se algum espião estivesse por perto para roubar os poucos resultados preciosos que eu tinha, pensava que seria ótimo se o meu trabalho, que um dia eu imaginei que se tornaria um bem da humanidade, pudesse me ajudar pelo menos a conseguir um emprego de gente.

No quarto e último ano do meu doutorado eu acordava às 10. Tinha ido dormir as 3 da manhã, mas como eu havia me mudado com um colchonete e um edredon para uma sala do lado do meu laboratório, não fazia muita diferença. Descobri que morar no trabalho tinha muitas vantagens: não precisava pagar a conta de internet, de luz, de água e muito menos aluguel. O difícil era ter que fingir que estava chegando todas as manhãs e indo embora todas as noites. Os porteiros desconfiavam, mas como eu mudava de local a cada semana, ninguém nunca me encontrou no meio da noite e eu fui ficando por lá mesmo. Consegui ler mais de 70% dos artigos que precisava, o que já era bom, considerando que só faltariam mais uns 500 para terminar. Não reclamava mais do sol (sol?), nem da chuva (chuva?), nem dos pássaros (???), já que mal me lembrava que essas coisas existiam. Fazia experimentos e escrevia a tese de manhã, de tarde e de noite. Quando me sentia só, ia para o biotério e batia um papo com os ratinhos e camundongos. Eles eram bastante eloquentes, quando queriam conversar! Rezava para que o meu trabalho fosse bom o suficiente para que eu ao menos conseguisse um... um... alguma coisa que pagasse um salário. Quando tinha tempo de parar e pensar na vida, tinha crises histéricas de riso, lembrando que um dia eu fiquei nas nuvens por ter passado num doutorado dos melhores do Brasil, e que isso era uma grande honra. Ria e entendia que isso era uma grande piada, que alguém que tinha passado exatamente pela mesma coisa que eu deu força para outra pessoa entrar na pós-graduação e depois se mijou de tanto rir. É como se fosse uma compensação por todo o sofrimento que se passou.. o próximo passo, sem dúvida, seria virar professora e inflingir essa mesma experiência num monte de gente ingênua!

Hoje, depois de 4 anos, terminei meu doutorado. Saí da tese como um soldado volta da guerra. Feliz por não ter morrido no processo, mais feliz ainda por saber que eu consegui tudo com meu esforço. Ao mesmo tempo com medo de pisar na rua e dar de cara com esse mundo selvagem, que engole a gente, que não dá segundas chances. Com síndrome do pânico de saber que não tenho que ler mais nada, que posso dormir a noite inteira, que não tenho prazo para entregar relatório. Mundo louco. Não sei como as pessoas conseguem viver nele!

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OBS: Tá, antes dos amigos começarem a mandar mensagens perguntando se tá tudo bem ou já pensando em me interditar, esse texto é só uma bobeira que saiu da minha cabeça. Eu NÃO estou ficando louca (não mais que o usual), NÃO estou com crise, NÃO estou morando no laboratório, NÃO surtei de vez! Fiquem tranquilos! A defesa é daqui a um pouco mais que um ano e meio e eu estou tranquila (na medida do possível!).

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terça-feira, 18 de maio de 2010

Rindo à toa

Deixa eu contar uma coisa. O problema de estar num redemoinho de trabalho, projetos e preocupações é que sobra muito pouco tempo para realmente descansar e se divertir. A gente acaba fazendo muita coisa no automático, sendo breve nos prazeres e mais dedicada ao que merece mais atenção. Da mesma maneira, as pequenas coisas que nos divertem e nos fazem rir são impagáveis! Eu, com a pressa toda que ando, estou cada vez mais boba-alegre. Qualquer coisa me faz rir, MUITO! Às vezes lembro de uma piada ou um acontecimento engraçado e me dobro de tanto rir. Normal eu ter crises de riso no meio da rua, aparentemente sem motivo algum. Acho que é uma forma de compensar o excesso de obrigações "sérias" na vida atual. Imagino o que as pessoas que estão caminhando por perto devem pensar! =D

Contei isso tudo só para justificar esse vídeo ABSURDAMENTE sem noção e bobo logo abaixo. Mas eu ri TANTO que quase engasguei. Vai entender!! kkkkkk 
Realmente estou precisando de uma dose mais homeopática de comédia para não ficar tendo esses ataques cômicos de uma hora pra outra!


Só para esclarecer, essa pessoa do vídeo recebeu anestesia inalatória e estava se recuperando numa salinha, antes de ir para casa. Muito engraçado como o povo fica grogue!

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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Uma vida musical - João Carlos Martins


No dia das mães do ano passado eu levei meus pais, que estavam em SP de visita, à Sala São Paulo. Sobre a Sala já deixei as minhas impressões AQUI, mas vale ressaltar que eu considero esse um dos melhores passeios da cidade. Pois bem... era a primeira vez deles num concerto na Sala e a minha segunda. Sabia que a Orquestra Bachiana se apresentaria e que eles abririam a apresentação com a 5 Sinfonia de Beethoven. O regente era João Carlos Martins. Dele só sabia que era um dos grandes intérpretes atuais de Bach. O dia foi simplesmente maravilhoso! Todo mundo sabe qual é a Quinta Sinfonia, mas poucos já tiveram o supremo prazer de estar na melhor sala de concertos do Brasil e uma das melhores do mundo e escutar, assim de uma hora pra outra, música vindo de todas as partes... profunda, intoxicante, inebriante! O susto é tão grande, o poder da orquestra ali do lado, a força da música, a perfeição do conjunto, que só nos resta entregar qualquer resistência e sentir o todo, fazer parte dele. Não é à tôa que tanta gente chora silenciosamente, de olhos fechados ou abertos, durante certas apresentações! Além do repertório sensacional, o que chamou a atenção na ocasião foi a felicidade e a empolgação que o João Carlos Martins apresentava. Ele chegava a tremer ao reger a orquestra! Como estávamos perto, ouvíamos até a sua respiração entrecortada. Um dia memorável, realmente!
Hoje eu cheguei da aula de espanhol, extremamente cansada após uma semana duríssima no trabalho e, enquanto olhava meus emails, liguei no último capítulo da novela. No fim da novela, assim como em todos os capítulos apresentados, aparece um vídeo de alguém que passou por um problema e o superou. E não é que, quando eu olhei para a TV, lá estava o João Carlos Martins? Pensei: "eu conheço esse cara, é o regente da Bachiana!" E realmente era ele. Não sabia da sua história de vida. Fiquei muito impressionada e comovida. O cara estudou música desde pequeno e se tornou um pianista de sucesso. Já tocou algumas vezes no Carnegie Hall, tocou com grandes orquestras do mundo inteiro e já gravou a obra completa de Bach para piano. Um dia, em um jogo de futebol, se machucou e perdeu o movimento de um dos dedos da mão direita. Depois de muito treino e perseverança, aprendeu a compensar a falta de habilidade desse dedo com movimentos rápidos da mão. Com isso desenvolveu LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e parou por um tempo de tocar. Como sua paixão pela música era imensa, conseguiu treinar sua mão direita e passou a tocar de uma maneira única e igualmente impressionante. Ao sair de um concerto em Sofia, na Bulgária, foi atacado por assaltantes e levou um golpe forte com uma barra de ferro na cabeça, o que ocasionou a perda de boa parte da habilidade dos dedos que ainda funcionavam bem. Por mais que se esforçasse para tocar, sentia dores muito fortes. Ainda assim persistiu. E, para agravar mais a situação, teve um tumor que inutilizou sua mão esquerda. Rresolveu, então, estudar regência, com 64 anos de idade! Hoje, João Carlos Martins consegue tocar com a ajuda de apenas alguns dedos, e resolveu criar uma orquestra para não ficar longe da música, que sempre foi sua grande motivação. Assim nasceu a Fundação Bachiana Filarmônica! Hoje é um regente dos mais famosos e capazes. Sempre emocionado, consegue levar o público ao delírio com sua paixão pela música clássica. É primoroso ver a alegria com que rege uma orquestra! Por sinal, no final do seu depoimento na novela das 8, ele ainda se apresentou como maestro frente a todo o elenco. Realmente, uma história de superação sensacional!
Maestro João Carlos Martins


Depoimento do maestro no último capítulo da novela "Viver a Vida"

Abaixo dois vídeos do maestro. O primeiro tocando "Eu sei que vou te amar", no Programa do Jô.  O segundo, a sua versão do Hino do Brasil, que foi apresentada no Carnegie Hall e aplaudida de pé pela platéia. Eu tive a sorte de ver essa essa duas músicas tocadas por ele (no piano) no mesmo dia que levei meus pais à Sala São Paulo!


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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Entropia

É uma luta perdida... a gente passa a vida inteira tentando manter tudo no seu lugar, tudo bonitinho, limpinho, organizado e cheiroso, mas é uma luta perdida. Quem já estudou um pouco de termodinâmica deve ter provavelmente decorado que uma tal de "entropia" é uma forma de se referir ao grau de "desorganização do sistema". Tentando falar de uma forma mais descomplicada, tudo na vida tende ao caos, à bagunça. A entropia é um jeito de se referir ao "tamanho" da bagunça que existe. Vamos para exemplos práticos. A gente tende ao fedor. Isso é fato. Todo mundo, só de viver, fede. E para aqueles que estejam balançando a cabeça em negação, eu desafio a ficar uma semana sem banho... e aí conversamos. Ou então dê uma boa fungada no ar de um vagão lotado do metrô, ou ônibus, às 6 da tarde. A  maioria das pessoas está "vencida". E eu bem acho que o ser humano se acostuma com o cheirinho de macaco, se não lutar contra ele. Se não tiver uma limpeza constante, já era! A gente sua, produz gases duvidosos, empurra o bolo alimentar entranhas abaixo, cria bactérias em tudo quanto é canto... mas a luta continua.. feder JAMAIS! E é por isso que é um tal de escovar dentes trocentas vezes por dia, tomar banho, lavar roupa, usar desodorante e perfume.. é a gente lutando contra a natureza fétida do ser humano. E não me venham com papos do tipo "o ser humano é perfeito e lindo"... pefeito nada... se fosse tão perfeito a gente não tava ajeitando tanto! É triste, mas é a realidade. 
A casa da gente tende à poeira, à desorganização.... e haja vassoura e pano de chão e Veja Multiuso e Pato Purific e paciência de Jó para esfregar cada cantinho, varrer e varrer e lavar e fazer isso de novo e mais uma vez... e por aí vai.  Quando eu era pequena, achava que a organização era uma coisa mágica. Eu pegava meus brinquedos, espalhava pela sala, jogava a roupa no chão, a meia suja no banheiro, deixava prato e copo usado na pia e, milagrosamente, depois de um tempo estava tudo organizado e limpo. Até que eu percebi que existe uma força-tarefa nesse mundo, composta principalmente pelas mães e empregadas, que luta contra a desorganização, sujeira, doença e coisas fedidas. Mas um dia eu fui morar longe da "força-tarefa", e aí, meus amigos, a entropia caiu matando. Feder eu não fedia... continuo com meu cheirinho bom... pelo menos isso... mas descobri o quanto a luta é injusta, apesar de necessária. Entendi que "rapadura é doce mas num é mole não" e que "a vida é dura pra quem é mole", que bom mesmo era a casa mágica da mãe da gente, e que não há reza brava nem promessa que deixa a coisa mais bonita. Nos momentos de revolta a gente limpa, esfrega, lava a casa... mas aí vem os momentos de desânimo, quando dá vontade de levantar uma bandeira branca, pedir "altas", se entregar ao limbo, ao caos, ao beleléu, esquecer do esforço de manter tudo organizado e funcionando, dar uma "banana" pro rodo e pra vassoura... e pro cabelo no ralo, que até hoje eu continuo achando uma coisa tóxica e pestilenta.... mas feder... JAMAIS!

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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Números

00:01 é o que marca no relógio do meu notebook neste exato momento. 1461 é o número de dias que deve durar o meu doutorado... teoricamente. 30 é a minha idade. 5 é o número de livros que estou lendo hoje. 8 é o número de séries de TV que acompanho. 386 são quantos dias faltam para eu ir para a Europa novamente. 2 é o número de irmãos que tenho. 25 é o número de primos. 1800 é o valor médio de uma bolsa de doutorado paga pelo Brasil. 15 minutos é o tempo que levo para tomar banho. 8 é o número de horas para ir de SP a BH de ônibus contra apenas 55 minutos de avião. Mas o trajeto casa-aeroporto-casa demora mais umas 5 horas. 11 foram quantas vezes eu vi o filme "A História sem Fim", quando era pequena. 4 é o número de países estrangeiros que eu já visitei. 100 é a idade que o meu avô tinha quando eu o vi pela última vez. 31 são os meses que eu já estou morando em SP. 19 é o número de anos que eu convivo com a melhor das melhores amiga. 8 é o número de horas que eu deveria dormir por noite. 7 foi a colocação que passei no exame de mestrado e 3 a de doutorado. 38 foi a colocação que tirei num concurso que queria muito passar, mas não passei. 2 foram os gatos que eu já tive. Infinitas foram as vezes que quis voar, sumir e ir pra Plutão quando estava calor (ou então pro Pólo Norte). Absurdamente grande é o número de caraminholas que tenho na cabeça. Zero é a criatividade para terminar esse texto numérico.

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Vida de bailarina

Um dia me disseram que a bailarina, quando rodopia sem parar e ainda consegue sair do giro em perfeito equilíbrio, só faz isso direito se focar o olho em algo. Pode ser qualquer coisa, um ponto de referência, uma porta, uma cadeira, para que ela fixe o olhar por um tempo ínfimo. Ela gira e olha, gira e olha, gira e olha. Se ela não focar o olhar em nada, fica tonta e cai. E quando eu era pequena, treinei muito essa versão do "ponto de referência"... e sempre funcionou.
Hoje eu vejo que, no auge do meu trabalho desenfreado, que não respeita manhãs, tardes ou noites, pontos de referência são fundamentais. Eles mantêm a minha sanidade. Pode parecer besteira, mas no ritmo que ando, onde praticamente esqueço de almoçar e não tenho horários para dormir, mas sim para acordar, pequenos portos-seguros são essenciais para não deixar "a peteca cair", ou para quem preferir, a bailarina parar de girar. Os meus dois banhos diários são exemplos disso. Eu preciso tomar banho antes de sair e logo que eu chego em casa. PRECISO. É uma forma da minha mente entender que "ei, o dia ainda é longo"! Da mesma forma que assistir Bom Dia, Brasil se tornou um hábito saudável. Querendo ou não, essa é praticamente a minha única forma de saber o que acontece no mundo e na minha esquina. Tomar um café da manhã decente faz parte. E um cafézinho no meio da manhã, na USP, com amigos, é essencial. Essa pausa pro café é o meu primeiro grande ponto de referência do dia. É a partir dela que eu sei se estou atrasada com o trabalho ou não. De como o resto do dia vai ser. Reunião toda quinta-feira de manhã, para discutir duas coisas com o mesmo grupo de amigos: contos de autores famosos e experimentos que estão em andamento no laboratório e que merecem discussão. Pode parecer meio estranho, arranjar tempo numa agenda lotada para isso, que é tão "dispensável"... mas a sanidade agradece! O almoço de sexta-feira é especial... SEMPRE... é o dia em que me permito comer bem, num bom restaurante, com tempo, já que à tarde eu só tenho aula de espanhol. E sempre que possível, ver séries de TV ou filmes antes de dormir. Coloco o notebook do lado da minha cama, numa cadeira, assisto o episódio e depois viro pro lado e durmo. Me ajuda a tirar o trabalho da minha cabeça. Diminui o cansaço. Libera espaço para sonhos bons. E bom humor... sempre... nem que para isso eu tenha que ser a "palhaça" do lugar. Bom humor é remédio pra tudo. E é contagioso!
E assim eu vou indo, sabendo que é uma fase. Mas ao mesmo tempo querendo aproveitar que estou aqui para isso, mudei para SP para isso, e que, por ser só uma fase, vale a pena investir tudo e mais um pouco para terminar a tese bem, com a mente sã, ao fim de quatro anos em que eu farei de tudo para continuar como a bailarina do começo, graciosamente!
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terça-feira, 4 de maio de 2010

One Book One Twitter

Tudo teoricamente começou em 1998, nos Estados Unidos, quando foi proposto em Seattle que todas as pessoas lessem o mesmo livro. Assim começou a campanha One Book, One City (Um Livro, Uma Cidade). E não é que a proposta deu certo? O livro escolhido foi "The Sweet Hereafter" e por um verão inteiro inúmeras pessoas o leram. Depois disso, várias cidades começaram campanhas parecidas, sempre escolhendo um livro após votação pública. E agora, um cara chamado Jeff Howe, jornalista da Wired Magazine, resolveu jogar mais um desafio, só que dessa vez, mundial. A maior diferença é que essa nova campanha é focada na divulgação pelo Twitter e se chama "One Book One Twitter" (Um Livro Um Twitter). E o livro escolhido foi o do meu mais novo autor queridinho, Neil Gaiman! É uma obra que eu até então não tinha ouvido falar, chamada "American Gods". Tô super empolgada com essas novidades "carnavalescas" do mundo literário! A proposta se baseia na discussão pelo Twitter, através de recadinhos e mensagens, de cada capítulo, de cada parte emocionante, de tudo que merecer atenção! Parece que a edição em português do livro está esgotada e não é fácil comprar nem uma versão usada mais barata. Mas eu é que não perco a chance de participar dessa corrente literária... mas neeeeeeeem pensar!! Dou lá meu jeito, nem que seja para pedir em inglês, pela Amazon.com!

 Neil Gaiman e seu jeitão meio "diferente"

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sábado, 1 de maio de 2010

Simplesmente carne

_ Zed, qual é a emergência? Tive que interromper as minhas férias do outro lado da galáxia e me teletransportar para cá porque você lançou um sinal de alta prioridade. Espero que seja realmente urgente!
_Borg, senhor, é realmente algo que merece atenção, é que a última avaliação do setor espacial 5432-X mostrou sinais de um planeta que possui vida inteligente.
_Hmmm, interessante. Aquela região toda nunca se mostrou tão promissora e agora um planeta com vida inteligente! Muito interessante, realmente, algo que poderá ser apresentado no próximo censo demográfico de ocupação do universo, na verdade deveríamos já enviar um embaixador para iniciar as relações intergalácticas de paz com esses seres... mas não creio que isso fosse algo que exigisse o meu retorno tão rápido...
_Mas, senhor Borg, não pára por aí. Enviamos sondas para o local e descobrimos que os seres que vivem por lá, que se autodenominam "seres humanos", num planetinha azul chamado por eles de Terra, que depende inteiramente de luz solar, são altamente... hmmm.. altamente "diferentes", senhor.
_Diferentes como, Zed?
_Bem, senhor, é um tanto quanto desconcertante, mas toda a biologia desses seres é baseada em... carbono! Eles são, praticamente, formados por... carne.
_Carne?
_Sim, senhor. Carne. Carne altamente organizada e funcional... mas carne.
_Isso é algum tipo de brincadeira, Zed?
_Não, senhor Borg... é realmente difícil de aceitar mas esses seres formados de carne construíram cidades, conhecem uma ciência ainda rudimentar, e se comunicam de maneira eficaz uns com os outros.
_???... Comunicação? Como carne se comunica?
_Passando ar por orifícios internos, e produzindo sons diferentes, senhor.
_Carne falante????? Era só o que me faltava!
_Sim, senhor, e eles ainda se reproduzem e evoluem...
_Zed, como isso seria possível? Como é possível carne evoluir e raciocinar? De onde vem a energia para tanto?
_ Eles vivem de outros compostos de carbono, inclusive de... carne...
_Carne que come carne? Zed, espero que perceba o quanto isso soa ridículo. Carne é altamente perecível. Como um ser de carne poderia sobreviver por longos períodos e...
_Mas aí é que está, senhor Borg, eles tem uma vida relativamente limitada, conseguindo sobreviver por apenas uns poucos de nossos anos. Dificilmente chegam a um século, na verdade.
_Deve haver algum engano! Provavelmente eles possuem carne recobrindo algum tipo de metal puro, como os Shlorks, ou ainda são seres de energia que criam imagens holográficas que se parecem com carne.. ou...
_Infelizmente não, senhor. Nossas investigações mostram que eles são 100% carne e nem são tão evoluídos para saberem da possibilidade da existência de seres de energia.
_....................
_Não sei como proceder, senhor, as chances de vida inteligente baseada em carbono são... praticamente... inexistentes...
_Um mistério, realmente, como algo tão frágil e inusitado possa ter evoluído... realmente impensável... E eles sabem da existência do Governo Unificado Intergaláctico?
_Não, senhor. Como eu disse, eles ainda são limitados em muitos aspectos. A maior parte da população sequer acredita em vida fora do seu planeta.
_Ora, que ultraje! Como se o planetinha deles fosse algo que merecesse tanta importância.
_E então senhor, o que devemos fazer? Sigo o protocolo, catalogo a região, e envio a eles uma mensagem de esclarecimento e de boas vindas à Comunidade Intergaláctica?
_Pelo Big Bang, não!!! Zed, você já imaginou como seria se apresentássemos ao resto do Universo a descoberta de que existem seres que são... bem... oras... carne?!?!? Seríamos a última piada universal! Muito desconcertante tudo isso, de fato, mas não é sensato seguir o protocolo nessa situação!
_Mas senhor...
_Sem mas, Zed. É impensável dizer ao resto do mundo que encontramos carne que fala, que pensa, que vive. Apague todos os dados do computador sobre eles. E nada sobre isso no relatório!  Intercepte toda e qualquer mensagem que eles possam enviar à procura de seres de outros planetas e nunca as responda. Não fale a respeito disso com ninguém, sigilo absoluto. Com sorte eles nunca serão descobertos por nenhum outro grupo como o nosso, aquela região não era estudada há mais de 1 bilhão de anos! Provavelmente eles já estarão extintos quando seu planeta for novamente escaneado. Ora, ora... onde já se viu... carne!

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PS: Há muito tempo atrás li um conto na revista Speak Up que era exatamente sobre isso: a descoberta da Terra por um grupo de alienígenas que ficou extremamente perturbado com o fato de sermos seres inteligentes e, ao mesmo tempo, carne! Obviamente o texto era muitíssimo mais interessante e engraçado. Mas como eu perdi a revista e não consigo encontrar esse texto de forma alguma, resolvi tentar escrever mais ou menos o que lembrava. Resumindo, esse não é um texto original, foi inteiramente baseado na história que um dia eu li e achei muito inusitada e diferente.

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