domingo, 30 de maio de 2010

Livre-arbítrio

 
Ela morreu e foi parar num campo lindo, cheio de flores, com um sol brilhante que iluminava a paisagem paradisíaca. Logo encontrou seus pais e amigos já falecidos há tanto tempo. Todos ostentavam um ar de felicidade suprema, de maravilhamento. Todos vestiam roupas brancas, tão condizentes àquela realidade. Era tudo como sempre havia pensado que seria. "Eu sempre soube que o Céu era assim" pensou a moça antes de se juntar aos outros.

Ele morreu e foi parar em um lugar escuro, fétido e cheio de sofrimentos. Podia escutar coisas se arrastando na penumbra e ouvir gritos de dor e desespero ao seu redor. Não demorou muito para sentir a primeira pontada de uma lança de fogo que abria sua carne e torturava sua alma. No limbo ele urrou, chorou, pediu perdão por tudo que tinha feito ou pensado fazer. E um pensamento que sempre lhe voltava era: Eu sabia que viria para cá, quando morresse.

Ela morreu e avistou um túnel de luz que se estendia infinitamente. Dele vinha uma música tão linda que era impossível se afastar. E por ele, ela andou até encontrar faces amigas, que a saudaram e disseram que era um prazer revê-la, e que tomariam conta dela dali em diante. Palavras reconfortantes que ela já esperava, pois o que estava em sua cabeça naquele momento era: "Morrer é exatamente como eu pensei que seria!".

Ele morreu e foi parar num Parque de Diversões, cercado de brinquedos, balões, algodão-doce e pipoca. O cachorro que tinha fugido de casa há um tempo atrás também estava lá, e veio correndo quando o avistou. E ali os dias passavam, ora na companhia de amiguinhos, ora recebendo o carinho dos pais, mas feliz de saber que o Céu era do jeitinho que a avó tinha contado que seria.

Ela morreu e foi só isso. Não houve nada do lado de lá. Só a escuridão e o findar da sua consciência que elaborou um último pensamento, antes de se extinguir para sempre: Eu sempre soube que, com a morte, tudo acaba!

E Ele balançou a cabeça, mais uma vez, enquanto analisava a raça humana... mais uma vez. Liberdade de escolha fora o maior dos seus presentes, o mais nobre, o mais bonito, o mais divino. Que parte do livre-arbítrio eles ainda não tinham entendido? Valia para todos. Valia na vida. E, é claro, valia na morte.

____________________________________________________________________

PS: Esse texto me lembra tanto de um filme chamado "Amor Além da Vida", lançado em 1998, que conta com o Robin Williams e fala exatamente das nossas "opções" ao morrer.
 
*Imagem: Nem precisava dizer que é um detalhe do famoso afresco do teto da Capela Sistina, de Michelangelo, né?

1 comentários:

Cristiane disse... [Responder comentário]

Eu assisti este filme.

Gostei do texto, bem que podia ser assim mesmo.

beijos

Related Posts with Thumbnails