domingo, 23 de maio de 2010

"Pós-graduar"

 Retirado de http://www.phdcomics.com/comics.php

São 4 anos de doutorado. No primeiro ano eu acordava logo às 6 da manhã, tomava um banho demorado, um café completo com frutas, suco, leite, pães e frios, vestia sempre uma roupinha nova ou recém-lavada, saía de casa cheirosinha e dando bom dia para o mundo, para as árvores, para os pássaros, feliz de ter passado nesse curso de pós-graduação tão concorrido, me sentindo a última batata do pacote. Estudava todos os dias os experimentos realizados, estava com a literatura em dia, me sentia dona da situação, irradiava bom humor e educação.

No segundo ano eu já acordava às 7, tomava um banho de gato, vestia uma roupa meio velha, mas mais condizente com jaleco de laboratório e experimentos com animais, comia sucrilhos, pois era menos burocrático, saía de casa sempre ligeiramente atrasada, tentava ler os artigos científicos ainda do ano anterior, pensando sempre que em breve eu estaria em dia com a literatura, irradiava sono e preocupação, mas ainda sabendo que o que eu fazia era uma coisa linda, para poucos, e que contribuiria para o bem da humanidade.

No terceiro ano eu acordava às 9, porque tinha voltado do laboratório 1 da manhã daquele mesmo dia. Jogava tudo no liquidificador porque fazer vitamina é mais rápido, tomava banho, escovava os dentes e depilava, tudo ao mesmo tempo, saía de casa com uma roupa meio desbotada, com cara de pijama (será que não era um?) que eu tinha comprado para o meu primeiro ano de doutorado, andava até o trabalho com um olho na rua e outro nos artigos de dois anos atrás que eu ainda não tinha conseguido terminar de ler, carregava na mochila os 50 artigos mais importantes dos outros anos que eu precisava ler urgentemente, mandava uma mensagem para minha mãe dizendo que eu sabia que não falava com ela há quase 30 dias, mas que eu estava um pouco ocupada e assim que pudesse a visitaria, xingava o sol que era quente demais, a chuva que era muito molhada, os pássaros que faziam muita algazarra, o clima que era sempre muito quente ou muito frio, as pessoas que eram muito intrometidas, sempre perguntando com foi o meu fim de semana ou se eu estava bem. Andava pelo laboratório meio curvada, como se algum espião estivesse por perto para roubar os poucos resultados preciosos que eu tinha, pensava que seria ótimo se o meu trabalho, que um dia eu imaginei que se tornaria um bem da humanidade, pudesse me ajudar pelo menos a conseguir um emprego de gente.

No quarto e último ano do meu doutorado eu acordava às 10. Tinha ido dormir as 3 da manhã, mas como eu havia me mudado com um colchonete e um edredon para uma sala do lado do meu laboratório, não fazia muita diferença. Descobri que morar no trabalho tinha muitas vantagens: não precisava pagar a conta de internet, de luz, de água e muito menos aluguel. O difícil era ter que fingir que estava chegando todas as manhãs e indo embora todas as noites. Os porteiros desconfiavam, mas como eu mudava de local a cada semana, ninguém nunca me encontrou no meio da noite e eu fui ficando por lá mesmo. Consegui ler mais de 70% dos artigos que precisava, o que já era bom, considerando que só faltariam mais uns 500 para terminar. Não reclamava mais do sol (sol?), nem da chuva (chuva?), nem dos pássaros (???), já que mal me lembrava que essas coisas existiam. Fazia experimentos e escrevia a tese de manhã, de tarde e de noite. Quando me sentia só, ia para o biotério e batia um papo com os ratinhos e camundongos. Eles eram bastante eloquentes, quando queriam conversar! Rezava para que o meu trabalho fosse bom o suficiente para que eu ao menos conseguisse um... um... alguma coisa que pagasse um salário. Quando tinha tempo de parar e pensar na vida, tinha crises histéricas de riso, lembrando que um dia eu fiquei nas nuvens por ter passado num doutorado dos melhores do Brasil, e que isso era uma grande honra. Ria e entendia que isso era uma grande piada, que alguém que tinha passado exatamente pela mesma coisa que eu deu força para outra pessoa entrar na pós-graduação e depois se mijou de tanto rir. É como se fosse uma compensação por todo o sofrimento que se passou.. o próximo passo, sem dúvida, seria virar professora e inflingir essa mesma experiência num monte de gente ingênua!

Hoje, depois de 4 anos, terminei meu doutorado. Saí da tese como um soldado volta da guerra. Feliz por não ter morrido no processo, mais feliz ainda por saber que eu consegui tudo com meu esforço. Ao mesmo tempo com medo de pisar na rua e dar de cara com esse mundo selvagem, que engole a gente, que não dá segundas chances. Com síndrome do pânico de saber que não tenho que ler mais nada, que posso dormir a noite inteira, que não tenho prazo para entregar relatório. Mundo louco. Não sei como as pessoas conseguem viver nele!

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OBS: Tá, antes dos amigos começarem a mandar mensagens perguntando se tá tudo bem ou já pensando em me interditar, esse texto é só uma bobeira que saiu da minha cabeça. Eu NÃO estou ficando louca (não mais que o usual), NÃO estou com crise, NÃO estou morando no laboratório, NÃO surtei de vez! Fiquem tranquilos! A defesa é daqui a um pouco mais que um ano e meio e eu estou tranquila (na medida do possível!).

5 comentários:

Gislene disse... [Responder comentário]

Oi Ana!

Vc tá bem?!?!
Rsrsrs!
Faz tempo que não passava aqui...
Te espero lá no meu cantinho!

Beijão.

Ana Lucia disse... [Responder comentário]

kkkkk
Pois é, faz tempo que vc não me visita, hein? E como vai a Enfermagem?? Beijão!

Eduardo Loureiro Jr. disse... [Responder comentário]

Oi, Ana!

Ainda bem que você está endoidecendo literariamente pra não endoidecer literalmente. :)

Estou precisando falar com você, mas não localizei seu e-mail. Por favor, me escreve: edoardoARROBApatio.com.br

Ariel disse... [Responder comentário]

Nossa! então vc esta morando no laboratório? Jamais imaginei que a situação estava tão grave! Bjs.

Ana Campanha disse... [Responder comentário]

:)
Ariel, não diga que você não passou pelo mesmo!
Beijo

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