sábado, 31 de julho de 2010

A ironia do mundo

É uma pena que eu nasci trouxa, porque se fosse esperta não tinha estudado tanto. Não teria feito mais do que o terceiro grau, e entrar na faculdade, nem pensar, afinal de contas, os anos da faculdade são os melhores anos da vida, pra que gastar em cima de livro e estágio, não é mesmo? Se eu fosse mais rápida no gatilho teria feito um implante de bunda logo logo, um daqueles bundões bem grandes, que balançam que é uma beleza, colocaria uns peitões que só faltam deixar a pessoa corcunda, e teria feito o possível para passar no concurso da Loira do Tchananam, ou de algum grupo parecido. Seriam anos duríssimos de rebolação e tintura pesada no cabelo, mas assim que tivesse as pernas saradas e o gingado perfeito, entraria de cabeça na carreira artística, isto é, de poupança, me apelidaria de Mulher-Jaca ou Garota-Jamanta, e estaria hoje rica, viajada, bem casada pela quinta vez, um pouco sem conteúdo, mas quem precisa de cérebro quando se tem coisa mais importante, não é? Se eu fosse um pouco mais ligada nas tendências, tentaria também ter um programa de TV, um desses que a gente leva uma pessoa e seus desafetos para ver o pau quebrar em rede nacional, onde o que menos se preza é a decência do que se fala, mas sim a audiência. Claro, porque o que dá ibope é pití, barraco, desgraças em geral. Não acredita em mim? Vai olhar a audiência de uma rede de mais conteúdo como a Cultura e compara ela com qualquer outra que mostra aquilo que o telespectador quer. E na TV eu teria a chance de mostrar que falta de estudo não quer dizer nada, afinal de contas, quem precisa de conhecimento para saber apresentar uma coleção de lingerie todo santo dia, ou que I é de Escola. 
Agora, se eu tivesse nascido homem, teria me esforçado ao máximo para ser jogador de futebol. E que amor à camisa que nada, o que importa é jogar onde se paga melhor. Que seja no Japão, no Líbano ou no Qatar, pagando bem eu não pensaria duas vezes. E tem que ser futebol, porque é dos poucos esportes que pagam melhorzinho. Eu não seria trouxa de repetir o erro de perder meu tempo com vôlei.. naããooo... vôlei é esporte de pobre, é no futebol que a grana rola solta. E tudo bem se eu chegar num jogo decisivo, digamos, de uma Copa do Mundo, e sair pisando no adversário, ou resolver que não estou psicologicamente preparado para jogar... qual o problema? Afinal de contas é só mais um jogo, e pela merreca que eu ganharia, eu jogaria o que pudesse.
Mas, não... a trouxa aqui resolveu estudar, estudar, estudar, fazer um doutorado que quase me deixa vendendo o almoço para pagar a janta. Bem feito pra mim.. estudar.. onde já se viu? ... é óbvio que gente à tôa e que fica vagabundando, brincando de ser pesquisadora à custa do governo, não merece nada além de uma bolsa de estudos que não dá direito a férias, benefícios, nada. Afinal de contas, o estado já sustenta esse bando de estudante de pós-graduação que faz corpo mole e não quer trabalhar de verdade. E que, vejam só, aindam têm a audácia de reclamar do custo-benefício! E depois que terminar a pós, também não vai ter emprego que ganhe muito bem não! Quem mandou ser besta e estudar? Implante de bunda e peito tá aí, baratinho, para quem quiser ser alguém na vida!

 Mafalda, de Quino

1 comentários:

Cristiane disse... [Responder comentário]

Duas trouxas. E a de cá ainda por cima vai ter que ralar este tanto e ainda trabalhar, já que não terá bolsa. Devia ter feito como ouvi outro dia um familiar contar que um outro estava muito importante porque era gerente de uma loja... De onde a gente foi tirar esta idéia de fazer doutorado?

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