sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Carta ausente

Na carta que eu nunca escrevi, eu diria todas as coisas pequenas que guardo na minha cabeça e no meu coração, mas que não tenho coragem de dizer frente a frente. Eu contaria detalhadamente como gosto de tomar o meu café bem quentinho no inverno e ficar enrolada no cobertor, enquanto o dia acontece. E também como me sinto bem com um livro nas mãos e a cabeça em outro mundo. Falaria do cheiro da terra molhada com um pouquinho de esterco de boi, do gosto de requeijão quente com açúcar e do meu prazer em comer um feijão tropeiro com costelinha. Divagaria sobre o alívio do vento num dia quente, da massagem em um pé cansado e do ouvido verdadeiramente amigo, que escuta passivo até mesmo as mais condoídas queixas. Me enveredaria na dualidade do ser humano e como machuca um "não", quando se espera um "sim". Relembraria momentos de puro êxtase e realização e dias tão negros que até sair da cama parecia impossível. Descreveria como é hipnótico o pezinho de um bebê, com seus dedinhos perfeitos, e o seu cheiro de coisa nova, mas também de como eu não sou maternal o suficiente para querer um só pra mim. Colocaria no papel como derramar certas lágrimas sossega a alma e uma crise de riso conserta um dia ruim. Desfiaria um rosário de motivos do porquê uma hora eu quero ser cientista e na outra astronauta, e às vezes largar tudo e me juntar à ajuda humanitária da ONU. Explicaria o porquê de eu ser tão sabichona e dona de toda razão: é que não é fácil se mostrar frágil para o mundo, ele não se apieda de ninguém. E deixaria por extenso que eu fui muito feliz em tudo o que eu fiz, apesar dos pesares, porque, acima de tudo, eu sempre fui atrás do que quis.

1 comentários:

Cristiane disse... [Responder comentário]

Linda e delicada esta sua carta. Gostei.

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