sábado, 6 de novembro de 2010

O ET

 *Imagem do filme ET, O Extraterrestre - Steven Spielberg

Às vezes eu me sinto um ET, em meio a tanta gente seguindo o curso "normal" da vida. Ontem, logo depois da aula de espanhol, tive uma conversa longa com um colega de turma que vai ser pai em poucos dias. Nada programado, aconteceu da gente conversar por quase duas horas esperando uma chuva torrencial chegar ao fim. E a conversa foi basicamente sobre os diferentes tipos de pessoas e como, no fundo, se espera que todo mundo "siga" o que é convencional. Na verdade tudo começou no horário de lanche, quando começamos uma conversa sobre a minha sobrinha, que nasceu há poucos dias. Eu estava falando do quanto ela é fofa e linda, mas de como eu realmente não quero ter filhos por muito.. MUITO tempo. Aí as opiniões se dividiram. Metade da turma disse que isso é fase, que vai chegar o dia e a hora disso mudar... metade disse que também nunca sentiram vontade nenhuma, inclusive uma amiga, que já tem um filho de 28 anos, disse que aconteceu dela ter tido esse filho, mas que nunca quis e que nunca teria outro, apesar de gostar imensamente dele. Foi quando eu comentei que acho que, se um dia puder, vou adotar uma criança. Na verdade, não penso nem sequer em tentar ter um filho meu, penso em adotar direto, já que pra mim não faz a mínima diferença de qual útero ele veio. Claro que se tivesse um meu, tb iria gostar, mas a vontade de ter um assim é zero. E foi quando esse meu amigo, que vai ser pai, me disse que apoiaria 100% a esposa dele, caso ela decidisse não engravidar nunca. Ele também pensa como eu e acha que não faz a menor diferença a origem da criança.

Daí, a conversa passou, mais tarde, ao estilo de vida profissional. Ele é um historiador. Um cara que se interessa pela pesquisa histórica, pelo desenvolvimento das regiões, pela cultura... tudo isso estudado a fundo. Mas isso dá dinheiro? Para poucos até dá. Mas quem se especializa numa área dessas, faz mestrado e doutorado, é porque realmente gosta do que faz, independente se vai ganhar bem ou não. Ciência básica, em geral, é para quem ADORA o que faz, e não se imagina fzendo outra coisa. Caso contrário, a pessoa vai acabar desistindo e fazer um concurso ou algo que dê dinheiro, independente se o trabalho é somente suportável. Assim como ele, eu sei do valor de se estabelecer numa profissão e ganhar dinheiro. Sucesso financeiro é muito importante sim. Mas se sentir feliz com o trabalho escolhido (que é algo que vai tomar um super tempo na vida de cada um) é MUITO MAIS importante. Quando me perguntam qual o meu plano para depois do doutorado, a minha resposta é sempre: "o que eu etiver a fim de fazer na época". Tenho planos de continuar feliz no meu trabalho, mas não tenho a menor idéia do que vou fazer. As oportunidades vão aparecendo! Pra quê ficar estressado, se sentindo absurdamente pressionado, precisando fazer uma escolha de carreira e acabar ficando doente de tanta ansiedade? Não, bobeira. Assim como eu já decidi sobre família, eu também já decidi que não vou me estressar sem motivo por causa de trabalho. Afinal de contas eu virei bióloga por prazer, não para me tornar uma catedrática de uma Universidade Federal (o que é algo que, se um dia eu sentir vontade, eu me prepararei para isso... mas até o momento eu tô correndo pro lado contrário).

E também já me acostumei com as perguntas das pessoas que levam vidas mais "convencionais". 
"_ Por que você não faz um concurso?"
"_Por que você não pára de estudar e arruma um emprego de verdade?"
"_Por que você, que tem mestrado pela UFMG e doutorado pela USP, não se utiliza disso para ganhar muito dinheiro?"
"_Você tem que ter filhos antes dos 35, hein.. senão pode desistir!"
"_Mas você vai ficar na Universidade até quando?"

Dá até vontade de rir! As pessoas não entendem que eu, nem se pudesse, iria querer fazer outra coisa.  Não no momento atual. E o engraçado é que, as pessoas que estudaram/estudam comigo pensam de uma maneira muito parecida! E todos reclamam que também se sentem meio alienígenas frente à todas as pessoas que querem uma explicação sobre o "Por quê" delas terem escolhido aquela carreira.

Escolhemos porque quisemos, oras! E para falar a verdade eu também não consigo entender como as pessoas escolhem profissões absolutamente sem-graça... mas eu acredito que para elas deve fazer sentido, deve ter um apelo, porque afinal de contas ninguém quer trabalhar e viver uma vida infeliz, não é?

1 comentários:

Cristiane disse... [Responder comentário]

Me sinto igual! Bah, já cansei de responder a estas mesmas perguntas.
E, sim, historiador tem que gostar muito, mas muito do que faz para seguir na profissão, porque dinheiro, minha amiga, a gente não vê nem de longe...

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