segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O cofrinho

Não foi por querer que eu fiz o que fiz. Em minha defesa digo que fui praticamente obrigada a tomar aquela decisão. Não tive culpa, fui literalmente hipnotizada pela cena com a qual me deparei. A culpa foi da fila do banco onde estava. E também do calor insuportável que fazia. Ou da falta do que fazer. Ir ao banco é uma das atividades mais insuportáveis que existem, comparada somente a fazer faxina na casa. Mas eu fui. E naquele dia o ar condicionado quebrou. E eu na fila do banco. Enorme. Gigantesca. O meu tédio atingiu um nível máximo. Fiquei tanto tempo de pé, parada atrás de uma perua de salto alto e excesso de maquiagem, que acho que saí do corpo. Naquele forno infernal, onde o suor se acumulava em locais indevidos, eu flutuei acima de tudo e todos e vi aquele monte de gente penando e assando naquele cubículo que já fedia a pé. Desesperada para arrumar um passatempo, comecei a observar um por um, cada qual mais desinteressante que o anterior, cada um mais desanimador que o outro. Até que eu bati o olho no cofrinho. Bem, cofrinho é modo de dizer, aquilo era praticamente um cofre forte de banco. Um funcionário local, consertando um dos muitos caixas eletrônicos quebrados, estava agachado e bastante concentrado no que fazia. Não sei se foi pelo calor nauseante ou pela falta de cinto, a calça do indivíduo estava mais baixa do que devia, revelando a entrada de um cofrinho que mais parecia o Grand Canyon. Primeiro tive vontade de rir. Me segurei e quando a histeria do momento passou, eu ainda reparava naquele tobogã suado e foi aí que a idéia surgiu. Juro que não foi por mal. Mas, como eu já disse, a culpa foi da situação. Coloquei a mão dentro do bolso e procurei até encontrar o que eu sabia que estava lá: uma moeda de 1 Real, troco que recebi na compra de um sorvete. Medi a moeda com os dedos e o cofrinho com os olhos. A combinação era perfeita. Mais que perfeita. Aquele Real tinha nascido pra ser enfiado naquele cofre. Não tive escolha, apesar de que não havia porquê ter dúvidas se devia ou não fazer o que queria. Afinal de contas, eu estava num banco. E dinheiro é para ser depositado em cofres... então... foram só 5 passos curtos... a mão deslizou do bolso, segurando a moeda prata e dourada, rapidamente se aproximou e, tal qual um ímã com uma geladeira, fez o depósito naquele fundo de investimento que se oferecia, o Senhor de todos os cofres...

*Foto: Getty Images

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