segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Grito

 O Grito (1893) -  Edvard Munch

Na falta de tempo de parar e ter vontade de escrever algo para postar, resolvi colocar aqui o texto de uma escritora sensacional, que já conseguiu me ganhar assim, logo no primeiro livro seu que li. A Martha Medeiros tem um jeito especial de contar um caso. Eu me identifico muito com o seu jeito de escrever, já que é exatamente como eu gostaria de fazer: livre, leve e solto. Essa gaúcha talentosa, que já tanto contribuiu para os jornais Zero Hora e O Globo, não pára de me surpreender no livro que estou lendo: Montanha Russa. E é dessa coletânea que sai esse texto abaixo, que faz a gente pensar...

 "O Grito

Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.
Ela sabe.
Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.
Ele sabe.
Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.
Sabemos, sim.
Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar esse grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe em nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.
Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar esse amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.
A verdade grita. Provoca febre, salta aos olhos, desenvolve úlceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona e finge esquecer. Mas há uma verdade única : ninguém tem dúvida sobre si mesmo.
Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança. Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz.
E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!
Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.
Sabe.
Eu não sei por que sou assim.
Sabe."

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Pouco tempo atrás, também postei AQUI um outro texto dela, extremamente direto e sem delongas.

5 comentários:

diney willemen disse... [Responder comentário]

AMEI SEI BLOGUE...
Saudações Diney

Mikashi disse... [Responder comentário]

Como parece que adivinhaste que tenho ouvido muito esse grito... ;) Adorei, obrigada pela partilha!

Ana Campanha disse... [Responder comentário]

Obrigada, Diney! Volte sempre! :)

Ahh, Mikashi, já há tempos eu sei como a gente se parece!!!

Gui disse... [Responder comentário]

Oi Ana, tudo bem?! Prazer em conhecer seu blog!

Vim pelo www.vicioviagem.blogspot.com , graças a Bia, que tem uns 3 anos que acompanho... muito legal o encontro de vcs!

No mais agora estou “linkado” com seu blog tbm, aparecerei de vez em quando por aqui.

Quanto a indicação de texto deste post, muito bom, me fez lembrar outro escritor do sul o Carpejani, já ouviu falar? Ele também trabalha muito bem com este dilema, mente, ego, eu interior etc....

Ah e a frase subtítulo do seu microcosmo, de Carl Sagan, inspiração pro “O contato”, filme que mais gosto, tenho mesmo que voltar aqui+... valeu e bjs

Ana Campanha disse... [Responder comentário]

Poxa, Gui, que prazer te "conhecer"! Realmente foi muito bom poder encontrar a Bia aqui em SP, acho que não podemos deixar passar a oportunidade de encontros como esse!!

Não conheço o Carpejani, mas já me interessei. Você sugere algum livro/texto dele?

E quanto ao Carl Sagan, eu tenho uma admiração profunda pelo cientista que ele foi... se procurar no meu blog vai achar outros textos em que me refiro a ele. Com certeza a frase do início da minha tese será dele!

Um grande abraço!!

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