segunda-feira, 20 de maio de 2013

Metades

two more halves of a lemon
Foto: Flickr

Dizem que cada pessoa tem uma certa tendência a ser mais racional ou mais emocional. Gente que pensa "metodicamente", separando o joio do trigo, que tem facilidade para ciências exatas, que se utiliza bastante da razão pra decidir as coisas, seria mais racional. Já os demais têm uma facilidade maior para artes, ciências sociais, qualquer evento que exija criatividade, improviso, dinamismo. Obviamente ninguém é só uma coisa. Somos todos uma mistura.

Eu não me conheço bem, até hoje. Esses dias mesmo me defini como sendo "desassossegada", porque ainda não encontrei um plano certo pra vida. Ainda não sei onde quero morar, não tenho ideia do tipo de trabalho que estarei fazendo em 10 anos, e só recentemente percebi que meu lado racional é o que manda aqui no coreto. Sim, percebi que, apesar de ser uma pessoa extremamente dramática, quando o bicho pega é com a razão que eu sempre resolvo tudo.

Entre as coisas que eu SEI sobre mim, tenho a plena certeza de que preciso viajar, e MUITO! Rondando por blogs na internet me deparei com um texto (não me lembro o autor) que dizia que as pessoas deveriam gastar uma parte do que ganham se permitindo viajar para lugares diferentes. Não importando a companhia, afinal de contas devemos saber nos virar sozinhos, mas sempre conhecendo, experimentando, saindo da mesmice de viagens programadas e passeios pré-determinados. Ele dizia algo muito certo: -Viajar é uma experiência que nos torna mais humildes.- Porque ver uma reportagem sobre pessoas passando fome e necessidades e estar no local são experiências completamente diferentes. Quando a gente viaja e se permite fazer parte do novo ambiente, as coisas nos afetam de uma maneira distinta. Sair do nosso casulo de conforto é essencial para que nós acabemos nos conhecendo mais. E o autoconhecimento nos acalma e nos deixa mais preparados pra lidar com tudo.

Eu ainda preciso me aprofundar bastante nisso para certas coisas fazerem sentido na minha cabeça. Em muitos e muitos momentos eu me sinto numa montanha-russa, como se eu fosse refém de sensações antagônicas de segurança e abandono, de tristeza e alegria, de otimismo e pessimismo. Sei que todo mundo deve ter isso, em um grau ou em outro.

Lembro que, há muitos anos, eu fui a uma consulta com um médico homeopata e, mesmo sem acreditar muito naquilo, aceitei entrar num tratamento que se baseava em engolir umas bolinhas açucaradas, todos os dias. O mais interessante foi que, na primeira consulta, antes de me receitar qualquer coisa, o médico me fez responder um questionário e uma das perguntas era: Qual o maior medo que você tem?- Aquilo me incomodou e, depois de pensar, respondi: Da solidão.- E, reparem, eu não estava falando necessariamente da solidão de não ter alguém, mas principalmente da solidão por não encontrar algo que me completasse, um sonho que valesse a pena, a certeza de um ideal. Meu medo era de ficar vagando sem rumo e ser muito diferente por isso, me sentindo só. Hoje eu já penso diferente, acredito que muita gente passa por isso. A solidão é o "mal do século", como disse Renato Russo.

É claro que já encontrei várias coisas boas pelas quais valem a pena se esforçar. E é claro que já me conheço muito mais do que naquela época. Mas tem dias que eu me lembro daquele poema do Oswaldo Montenegro, que conseguiu colocar tudo isso em algumas estrofes.

METADE
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca; 
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada 
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.. 

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta 
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.. 

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso 
Mas a outra metade é um vulcão... 

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei... 

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria 
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção... 

E que a minha loucura seja perdoada 
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
Oswaldo Montenegro 

3 comentários:

Bia disse... [Responder comentário]

Não sabia que Renato Russo tinha dito que a solidão é o mal do século, mas concordo. Ainda essa semana escrevi sobre isso no face. Gostei do seu post!!!
bjs

Ana Campanha disse... [Responder comentário]

Bia, toda vez que escrevo algo que envolva viajar eu lembro de vc! Bjo

Unknown disse... [Responder comentário]

É um dos meus poemas favoritos, você brilhou!!! Saudades!

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