quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Quando a Morte bateu à minha porta

Imagem: NET
Quando a Morte bateu à minha porta ela veio somente para uma visita social, nada muito sério. Ou, melhor dizendo, nada sério pra mim, mas fatal pra outro tanto de gente. Ela entrou assim sem cerimônia, foi logo sentando à mesa e servindo um café meio amargo (o que me pareceu combinar bastante com a situação). Soube da sua chegada por uma mensagem no whatsapp que dizia: "O Tio morreu!". Em outras três vezes bastante próximas recebi mensagens semelhantes, só mudando o gênero da pessoa. Tio, Tia, Tio e Tia, nessa ordem, sem muita dó ou piedade, como se ela estivesse mostrando que ninguém pode ficar por muito tempo protegido da sua visita, principalmente quando se tem uma família grande como a minha.

Sentada na minha cadeira nova, ela me olhava sem pudor nenhum, bebericando o café e fazendo cara de quem não estava ali pra fazer amigos. Eu bem que fingia que estava muito ocupada, arrumando os meus cadernos, lendo as notícias no jornal e amarrando os cadarços em um laço duplo, mas sentia aquele presença indesejada me analisando de uma maneira fria e calculista, como quem dissesse: "não adianta achar ruim... você viveu uma vida inteira sem grandes perdas, não venha reclamar que agora eu resolvi fazer uma limpa neste terreiro".

Encarei aqueles olhos de ressaca com a evidente resposta-muda pronta: "Não se leva quem está bem, quem ainda tem muito o que fazer, quem sequer tem idade pra ir embora!". Achei que ela repuxou o canto da boca, num escárnio superior, como quem mostra que a minha opinião era tão ingênua e irrelevante quanto um gato tentando apanhar uma sombra: "E desde quando você criou as regras do jogo? Como vocês gostam tanto de dizer - Para morrer, basta estar vivo - e isso vale pra qualquer um. Inclusive você."

E foi essa lembrança que restou desse encontro inusitado, uma frase persistente que tem me acordado todas as noites, que tem dançado nos meus sonhos e gritado no meu ouvido:
"Para morrer, basta estar vivo..."

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PS: A lembrança será eterna, assim como a saudade. Ainda lembro dos trejeitos, das brincadeiras, de situações únicas! E o que ficou foi a certeza de que não se deve perder um minuto, uma chance, uma oportunidade...
Obrigada por tudo, tios!

4 comentários:

Cão Danado disse... [Responder comentário]

Pois é Ana Lúcia. Não se pode perder uma chance. Mas que ela nos dê um fôlego pelo menos agora.

Até mais e abraço.

Eric

Lucas Conrado disse... [Responder comentário]

Enquanto lia o texto, me lembrava de uma crônica do Roberto Drummond. Na crônica, ele dizia que o mineiro sempre pensa que alguém morreu, quando o telefone toca na madrugada.

Pensei nessa crônica na noite de 25 pra 26 de dezembro de 2013, quando meu celular tocou. Era meu primo dizendo que o câncer havia vencido a batalha contra o pai dele.

Lucas Conrado disse... [Responder comentário]

Enquanto lia o texto, me lembrava de uma crônica do Roberto Drummond. Na crônica, ele dizia que o mineiro sempre pensa que alguém morreu, quando o telefone toca na madrugada.

Pensei nessa crônica na noite de 25 pra 26 de dezembro de 2013, quando meu celular tocou. Era meu primo dizendo que o câncer havia vencido a batalha contra o pai dele.

Ana Campanha disse... [Responder comentário]

=(

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